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241 anos: estudante usa véu como identidade e combate estereótipos

Nelson Urt em 21 de Setembro de 2019

Quem a vê correr, andar de bicicleta ou praticar jiu-jítsu não consegue imaginar que aquela garota de véu islâmico percorreu longos e penosos caminhos antes de chegar a Corumbá. O véu é apenas uma escolha pessoal, ela diz. Se quisesse, já o teria abandonado. “Mas hoje me sinto desconfortável sem ele, faz parte da minha identidade”, afirma a marroquina Manal Ounkhir.

Identidade que ela não abre mão e que agora incorpora aos seus estudos de mestrado. Manal, aos 22 anos, forma-se em Letras neste ano na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e já é autora de projeto de extensão com estudo e discussões em torno dos estereótipos formados a partir de princípios religiosos islâmicos interpretados com preconceito e absoluta falta de conhecimento. Será apresentado em outubro na Semana de Letras na UFMS.

Além disso, prepara um projeto de pesquisa para um futuro mestrado baseado no livro best seller que virou filme, O Caçador de Pipas, de Khaled Hosseini, e outras obras emblemáticas do escritor do Afeganistão, com temas sobre migrantes, guerras e choques culturais. “Pretendo estudar mais a fundo essa questão dos estereótipos que são criados em torno de religião islâmica, ajudar as pessoas a compreenderem essa questão”, afirma.

Navepress

Manal no Campus Pantanal da UFMS: pesquisa ajuda a combater preconceito

Outra dificuldade de Manal é convencer as pessoas a verem nela uma jovem como outra qualquer, que gosta de estudar e praticar esportes, ver filmes e documentários no Netflix, com hábitos e costumes brasileiros. Isso depois de passar por um sofrido período de adaptação e as barreiras culturais próprias de uma imigrante que troca de repente a cidade de Ouarzazate, no Marrocos, país no norte da África, onde nasceu, por Corumbá.

Religião e véu islâmicos à parte, haveria mesmo um enorme choque cultural, que ela soube superar com inteligência, bom humor e perseverança. “As ideias radicais não existem no islamismo. Na verdade é uma postura machista, é uma cultura. E nós devemos diferenciar a cultura da religião. Mas as pessoas misturam tudo. É difícil de explicar isso, tem de sentar e explicar por horas e horas”, diz Manal ao Diário Corumbaense.

Quando criança, ao lado da família, Manal Ounkhir percorreu alguns países da Europa e morou durante sete anos na Alemanha. Hoje, a garota domina cinco idiomas além do português: o alemão, o espanhol, o francês, o árabe e o bérbere – esses três últimos falados no Marrocos.

Ela mora com a família em um anexo de uma mesquita islâmica, na rua Delamare. Na porta da frente há um aviso sobre aulas de alemão, francês e inglês ministradas pelo irmão mais velho. Manal vive desde os 13 anos em Corumbá. Quando chegou, assustada com o calor e as dificuldades de se comunicar, só pensava em ir embora. “Fiquei meio sem ter o que fazer, mas aos poucos fui me adaptando e agora na verdade não quero mais sair do Brasil”, diz. Estudou em uma escola de Puerto Quijarro e depois na Escola João Leite de Barros em Corumbá, antes de entrar para o curso de Letras da UFMS.

Fica claro, dessa forma, que sua luta extrapola a religião islâmica ou o uso do véu e de roupas longas que só deixam o rosto, pés e mãos à mostra, para se tornar a luta de uma jovem universitária corajosa diante dos estereótipos formados na sociedade. Se entender uma mulher migrante já é difícil, pior ainda uma mulher islâmica e africana.

Aliás, olhares preconceituosos nunca faltaram na vida de Manal desde que assumiu o hijab, o véu islâmico que cobre os cabelos e o pescoço e deixa apenas o rosto à mostra. Embora seja muito diferente da burca islâmica, que cobre o corpo inteiro, o hijab ainda chama muita atenção e desperta olhares de curiosidade e até espanto. Manal percebeu isso há pouco tempo durante um passeio no Shopping Norte Sul Plaza em Campo Grande. “Eu estava na lanchonete e percebi olhares de medo em minha volta, achei aquilo muito estranho mesmo”, conta.

Ela e a irmã, que já está casada com um brasileiro, acostumaram-se a serem vistas como “diferentes” desde que começaram a estudar na Escola João Leite de Barros, em Corumbá. “Mas nunca sofremos bullying ou algum tipo de preconceito na escola”, afirma. “Na rua já ouvi alguém me chamar de mulher bomba duas vezes, aqui e em Campo Grande. Não me importei tanto, na verdade hoje em dia brinco com meus professores, e virou brincadeira entre amigos”.

Certas reações só podem mesmo ser vistas com bom humor, como no caso de idosos que, ao vê-la, fazem o sinal da cruz ou coisa parecida. Manal acredita que não deva ser vista com uma alienígena, mas como qualquer outra jovem da sua idade, que sente prazer pelos livros, pelos estudos, que adora ver o pôr do sol no rio Paraguai, gosta do Festival América do Sul Pantanal e aprecia um bom churrasco com vinagrete.

Faz aulas de jiu-jítsu, boxe e muay thai como defesa pessoal. “As pessoas se basearam muito em filmes, na novela O Clone, para formar opinião. Pensam que queremos só buscar o homem, o casamento, mas em Marrocos não é nada disso”.

Ela lembra um princípio do islã. “O islamismo diz que o estudo e o conhecimento são as coisas mais importantes da vida. Sem conhecimento somos nada. E as pessoas ignoram essa parte”.

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