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Todes, Todxs, Tods, Tod@s: invenção ou mudança linguística?

Coluna Coisas da Língua, com Rosangela Villa(*) em 13 de Agosto de 2021

Caros leitores

Na trajetória histórica dos estudos linguísticos registramos que a língua evolui a partir de variações que ocorrem no âmbito da fala. Sendo tais variantes linguísticas amplamente difundidas passam a ser adotadas pelas diversas camadas sociais da comunidade, avançam para o campo da escrita, em diversos contextos de uso, para finalmente serem reconhecidas pela gramática e se tornarem padrão.

Nesse percurso, é preciso alertar que nem todas as variantes chegam a constituir mudança na língua tendo seu registro na ortografia oficial. Algumas palavras desaparecem tão rapidamente quanto seu surgimento, não passando de modismos facilitados pela influência da tecnologia, fogo de palha ou analogias motivadas por estrangeirismos. Mas o que gostaríamos de ressaltar é que o percurso de uma língua natural costuma ser este: da fala para a escrita.

A fala, primordial à escrita, por ter surgido antes na civilização, o desenvolvimento do sistema ortográfico, e a organização gramatical, que estrutura o uso na morfologia e na sintaxe. Nessa esteira, nós, brasileiros, somos muito criativos na invenção de  vocábulos e até de verbos, com inclinação a adotarmos estrangeirismos que achamos bonito ou que  representam fatos comuns no dia a dia, aportuguesando alguns para facilitar o emprego.

Isso acontece, por exemplo, com nomes de alimentos que levam queijo (cheese/X), como os populares: X-salada, X-egg, X-bacon, X-bagunça. Temos também o sanduíche, também do inglês, sandwich, com origem no costume do Conde de Sandwich (ilhas inglesas), que, no século XVIII, comia carne entre duas fatias de pão. E hambúrguer, tendo como origem costumes da cidade de Hamburgo, na Alemanha, que nos Estados Unidos passou a se chamar hamburg steak = bife ao estilo hamburguês. Atualmente, um comportamento tem provocado discussão na mídia e entre falantes do português, professores e público em geral, é a propagação, na escrita, dos vocábulos todes, todxs e tods como significado de gênero neutro.

Essa tendência à variação dos pronomes de tratamento no plural todos e todas se deve a grupos específicos que apoiam o chamado neutro no português. Entretanto, opositores dessas alterações das palavras são veementes quando afirmam que esses movimentos não conseguirão popularizar tais vocábulos na escrita a ponto desse comportamento avançar para o âmbito da fala.

Outros, mais espantados com o rumo da linguagem, acham desnecessário, inclusive, num evento, alguém cumprimentar o público com “Bom dia a todos e todas”, pois todos significa todas as pessoas, toda gente, todo mundo. Coisas da língua! E você, o que acha dessa ideia? Continuaremos esse assunto na próxima edição. Bom fim de semana.

(*) Rosangela Villa da Silva, Profa. Titular da UFMS, Mestre e Dra. em Linguística pela UNESP, com Pós-Doutorado em Sociolinguística pela Universidade de Coimbra/Portugal.

Comentários:

Nadir Salete: Uso todos, e apóio este uso, é mais simples e engloba o todo. Ótimas colocações!

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