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Se São João soubesse...

Coluna Ampla Visão, com Manoel Afonso em 02 de Junho de 2021

Caros leitores

A manifestação cultural e religiosa do Banho de São João de Corumbá é uma festividade que atravessa décadas. E, ao agregar pessoas de distintas religiões e classes sociais, o evento reflete a grandiosidade e a essência da celebração: fé, amor, devoção e alegria. A festa também impulsiona a economia local em seus diversos setores, e possibilita geração de renda para famílias que comercializam alimentos às margens do rio Paraguai, epicentro das atividades.

No dia 19 de maio, recebemos com alegria a notícia da aprovação pelo IPHAN do Banho de São João como Patrimônio Cultural do Brasil. Essa conquista representa o fruto de um trabalho que começou há anos com a articulação de festeiros e órgãos públicos na pessoa da saudosa Heloísa Urt, que esteve à frente da Fundação de Cultura do Pantanal de Corumbá, entre 2005 e 2008. Um dos objetivos da pasta foi o resgate e preservação das tradições corumbaenses, não só da festa do Banho de São João, como do Carnaval Cultural com marchinhas, desfile de Blocos e Cordões carnavalescos.

Com a sistematização do Banho de São João pela boa intervenção da Prefeitura de Corumbá, o evento ficou  melhor em vários aspectos, segurança dos festeiros e turistas, atrações musicais de nível nacional e estadual, praça de alimentação, ornamentação típica da ladeira Cunha e Cruz e da orla portuária, com destaque para a Prainha onde é realizado o banho do Santo. Isso tudo fez crescer nossa festa. Nessa esteira, registramos o livro da saudosa professora da UFMS, Eunice Ayala Rocha – A festa de São João em Corumbá, 1997, disponível na Biblioteca do CPAN/UFMS.

Na obra, a autora afirma que a festa de  São João pode ser considerada como uma “invenção” da Igreja consolidada pela capacidade dos padres que traduziram em evento cristão as práticas pagãs propiciatórias da fertilidade e as cerimônias de Adónis, divindade símbolo da vegetação, que cumpre o ciclo da semente. Eunice registra que as cerimônias eram realizadas como sortilégios para promover o crescimento ou renascimento da vegetação. Assim, na política de acomodação, e incapaz de acabar com o paganismo, a Igreja dá ao rito um nome cristão e procura um santo para suplantar o patrono pagão dos banhos, sendo São João Batista a melhor escolha dos doutores cristãos.

Outra obra que trata do tema é a cartilha de Marlene Mourão, Banho de São João em Corumbá, s.d, em que a autora  registra que a prática do banho de São João, na noite de 23 de junho, teve origem em Portugal.  Amigos, hoje é dia de comemorarmos a grande conquista ao som do complexo musical e coreográfico do Cururu e do Siriri acompanhados da Viola de Cocho, que já possui registro no IPHAN. Parabéns a todos os corumbaenses!!  O momento é de cantarmos juntos “Se São João soubesse, que hoje era seu dia, descia do céu a terra com prazer e alegria, descia do céu a terra com prazer e alegria! Viva São João!!”  Coisas da língua!

(*) Rosangela Villa da Silva, Profa. Titular da UFMS, Mestre e Dra. em Linguística pela UNESP, com Pós-Doutorado em Sociolinguística pela Universidade de Coimbra/Portugal.