Antigamente...

Coluna Coisas da Língua, com Rosangela Villa(*) em 25 de Outubro de 2019

Caros leitores

A semana de Letras da UFMS, realizada esta semana, no câmpus do Pantanal, ofereceu aos participantes vários momentos de reflexão sobre a língua portuguesa como ferramenta de organização social, e da importância de adequação da escolha de palavras e de paradigmas do idioma aos diversos contextos de comunicação para viabilizar a compreensão do diálogo e estabelecer a competência comunicativa do falante.

Um dos aspectos da língua, discutido no encontro foi a variação linguística que acontece em todas as línguas, comprovando o caráter heterogêneo e variável dos idiomas. Como exemplo, apresentamos a crônica de Carlos Drummond de Andrade, que comprova que a língua sofre variação no tempo e no espaço. ANTIGAMENTE, as moças chamavam-se mademoiselles e eram todas mimosas e muito prendadas. Não faziam anos: completavam primaveras, em geral dezoito.

Os janotas, mesmo não sendo rapagões, faziam-lhes pé-de-alferes, arrastando a asa, mas ficavam longos meses debaixo do balaio. E se levavam tábua, o remédio era tirar o cavalo da chuva e ir pregar em outra freguesia. As pessoas, quando corriam, antigamente, era para tirar o pai da forca e não caíam de cavalo magro. Algumas jogavam verde para colher maduro, e sabiam com quantos paus se faz uma canoa. … ANTIGAMENTE, certos tipos faziam negócios e ficavam a ver navios; outros eram pegados com a boca na botija, contavam tudo tintim por tintim e iam comer o pão que o diabo amassou, lá onde Judas perdeu as botas. Uns raros amarravam cachorro com linguiça. E alguns ouviam cantar o galo, mas não sabiam onde.

As famílias faziam sortimento na venda, tinham conta no carniceiro e arrematavam qualquer quitanda que passasse à porta, desde que o moleque do tabuleiro, quase sempre um cabrito, não tivesse catinga. ... ACONTECIA o indivíduo apanhar constipação; ficando perrengue, mandava o próprio chamar o doutor e, depois, ir à botica para aviar a receita, de cápsulas ou pílulas fedorentas.

Doença nefasta era a phtysica, feia era o gálico. Antigamente, os sobrados tinham assombrações, os meninos, lombrigas, asthma, os gatos, os homens portavam ceroulas, botinas e capa-de-goma, a casimira tinha de ser superior e mesmo X.P.T.O. London, não havia fotógrafos, mas retratistas, e os cristãos não morriam: descansavam. MAS TUDO ISSO era antigamente, isto é, outrora. Coisas da língua! O texto completo está disponível em: http://www.algumapoesia.com.br/drummond/drummond07.htm.

(*) Rosangela Villa é professora associada da UFMS e colaboradora do Diário Corumbaense.