"Bugre é índio desaldeado", já dizia Manoel de Barros

Coluna Coisas da Língua, com Rosangela Villa (*) em 23 de Novembro de 2018

Caros leitores

A frase do título é do nosso saudoso poeta Manoel de Barros, também conhecido como o poeta do Pantanal, muito embora, ele sempre preferisse ser chamado de poeta das palavras, e explicava isso com uma metáfora em que dizia que “Minhocas arejam a terra; poetas, a linguagem.” A verdade é que esse inteligente e sensível homem nos ensinou lições preciosas ao construir e desconstruir palavras fazendo surgir da natureza e do meio ambiente termos inusitados para nomear as “inutilezas” da vida, como o próprio poeta se referia às coisas simples que nos cercam no dia a dia e que nos representam na lida diária.

Assim, ao explicar a sua paixão pelas palavras, escreveu: “A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.” Tudo de simples, real e verdadeiro inspirava o poeta, mesmo o que poderia nos parecer pouco compreensível aliava-se à poesia manoelina. Ao descrever a figura indigenista do Pantanal, o poeta dizia que bugre é índio desaldeado, que vive na estrada de aldeia em aldeia procurando o que fazer e um lugar para ficar. Se vivo estivesse, talvez pudesse nomear bugres os milhares de migrantes da imensa aldeia urbana em que se tornou a Terra.

Embora esses sejam bugres numa rota de fuga bem mais complexa que o nosso índio pantaneiro de outrora. São fluxos humanos desencadeados por diferentes motivos: econômicos, culturais, religiosos, políticos e naturais (terremotos, enchentes, secas etc.), que marcham em busca da liberdade e da felicidade que podem estar do outro lado da fronteira. Assim, todos os dias, milhares de “bugres” desaldeados vagueiam pelo mundo, e centenas morrem silenciosamente junto com seus sonhos, pois a mesma fronteira que acolhe também divide, segrega, exclui, seleciona, marginaliza e mata.

O cenário de miséria agravada pela fome, doenças e guerras promove morte e destruição geral preocupando organismos internacionais de ajuda humanitária, como Médicos Sem Fronteiras, Lions Clubs International, Unicef, a portuguesa AMI, e outros, que nunca descansam para não perderem a batalha. Sendo assim, onde houver necessidade, ajude, pois quem precisa pode estar mais próximo do que pensamos, na nossa rua, bairro, cidade, o que nos faz lembrar de outro grande poeta brasileiro, o pernambucano Manuel Bandeira, que em seu poema O bicho, nos leva ao chão e ao lixo, à pobreza e ao desamor: “Vi ontem um bicho/ Na imundície do pátio/ Catando comida entre os detritos. Quando achava alguma coisa, não examinava nem cheirava: Engolia com voracidade. O bicho não era um cão,/ Não era um gato,/ Não era um rato./ O bicho, meu Deus, era um homem.”

Que as palavras desses mestres nos levem a refletir o quanto podemos ajudar a quem precisa. Bom fim de semana.

(*) Rosangela Villa é professora associada da UFMS e colaboradora do Diário Corumbaense.