Somos todos animais políticos

Coluna Coisas da Língua, com Rosangela Villa (*) em 28 de Setembro de 2018

Caros leitores

Nesse período de eleição, ouvimos de tudo, coisas boas e más, das propostas eleitorais, dos candidatos, e dos eleitores. Em busca de angariar votos e defender seus candidatos, muitos se colocam como o próprio candidato. Tanta é a paixão pelas ideologias de seu escolhido, que, as manifestações, às vezes, beiram ao excesso e ao absurdo, chegando a se constituírem, candidato e eleitor, em nítidas simbioses quase patológicas. 

E, juntos, por vezes, vão criando monstros que se alimentam dos desejos e de esperanças daqueles que ainda acreditam na luz no fim do túnel. Ignorar esse momento ou ficar de fora são hipóteses descartadas, pois, segundo Aristóteles, todo homem é um animal político. O que é perfeitamente natural, pois vivemos num mundo em que tudo nos afeta, e por isso mesmo não podemos ficar separados do direito e da justiça. 

Sendo esses valores, o direito e a justiça, diretamente associados à boa ética, àquela que de fato expressa um conjunto de comportamento que reflete o que é bom pra mim, pra você, e para todos. Portanto, não se indisponha com aqueles que lhe são caros por motivos alheios, pois, como dizia Mário Quintana no Poeminha do Contra, “Todos esses que aí estão atravancando meu caminho, eles passarão… Eu passarinho!”. 

Por outro lado, voltemos a Aristóteles, que nos inspirou ao título do texto, e que, com o seu conceito de animal político, nos coloca no epicentro de uma questão contemporânea. O filósofo observa que o homem é um ser que necessita de coisas e dos outros, sendo, por isso, um ser carente e imperfeito, buscando a comunidade para alcançar a completude e ser feliz. E a partir disso, ele concluiu que o homem é naturalmente político; sendo, portanto, um ser degradado ou sobre-humano quem vive fora da comunidade organizada. 

Nesse contexto, o filósofo aponta a diferença de cidadão e o habitante comum da cidade, atribuindo ao primeiro o poder sobre o executivo, o legislativo e o judiciário. Excluindo desse grupo, os idosos e as crianças, aqueles por estarem isentos de serviço, e, estas, porque não exercem funções cívicas. Nesse cenário, cresce o poder de um pequeno grupo de assessores para o qual convém olharmos, pois esses serão aqueles que, de fato, influenciarão o seu candidato nas decisões. 

Assim, é importante avaliar o seu preferido também por aqueles que dividirão com ele o seu espaço de poder. Pois, segundo o político Maquiavel, quando o conselheiro pensa mais em si mesmo, e que em todas as suas ações busca vantagem própria e não a do Estado, então pode estar certo de que aquele homem nunca será um bom secretário e não é confiável, pois um homem que serve à administração de um Estado nunca deve pensar em si mesmo. Por fim, todo o processo eleitoral, e não só o momento do voto, representa um exercício de cidadania, sendo imprescindível a sua participação nas várias etapas da eleição. Bom fim de semana! 

(*) Rosangela Villa é professora associada da UFMS e colaboradora do Diário Corumbaense.