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Leia "Crônica de Escola", de Luciene Lemos de Campos

Fonte: Luciene Lemos de Campos em 15 de Março de 2013

CRÔNICA DE ESCOLA

Para cúmulo de desespero, vi através das vidraças da escola, no claro azul do céu, por cima do morro do Livramento, um papagaio de papel, alto e largo, preso de uma corda imensa, que bojava no ar, uma cousa soberba. E eu na escola, sentado, pernas unidas, com o livro de leitura e a gramática nos joelhos (MACHADO DE ASSIS, 1980, p. 191).

A Escola não deve ser um quadrado inflexível. Há pontos fortes e fracos em toda e em cada equipe, mas para desvelar isso é necessário diálogo: discussão; conversação entre duas ou mais pessoas; habilidade de troca; ou ainda, hábito inato do contraditório e da soma - aquilo que confere ao homem o predicativo "racional".

Quem ganha e quem perde, quando a convivência na escola resume-se no abismo de uma sala de professores, nada convidativa, e em salas de aula que nem sempre são ambientes onde a ética, o respeito pelo outro, a qualidade e a colaboração mútua acontecem?

Garantir os 200 dias letivos e as 800 horas por ano é indubitavelmente tarefa do gestor. No entanto, não basta que este apenas observe se a quantidade da hora-aula foi cumprida. É preciso, antes, que a equipe escolar assegure que o ensino-aprendizagem, de fato e de direito, se efetive.

O trabalho do professor, por exemplo, é constituído de várias dimensões e, como qualquer ser, esse profissional - muitas vezes com jornadas de mais de 1600 horas por ano - pode passar por transtornos físicos, morais e psicológicos; pode sofrer perdas e também pode adoecer. Mas, pode e deve, principalmente, questionar as regras impostas a ele, a fim de contribuir para que essas sejam reavaliadas ou reelaboradas, visando à transformação, ao prazer de aprender para ensinar, ou orientar, seus discentes.

Mas, por vezes, a concepção de poder, da autoridade com perfil autoritário, acaba por tolher o espaço para criatividade do docente e isso, infelizmente, reflete na convivência entre o grupo. De modo que têm aumentado o número e o tempo de afastamento ou os atestados médicos concedidos aos docentes, principalmente para os da rede pública.

Criar mecanismo para melhorar a qualidade de ensino e garantir a aprendizagem ao aluno, direito, aliás, assegurado pela Constituição Federal, é fundamental, como também o é a dimensão afetiva que se constrói no ambiente escolar.

Afinal, não é função da escola a produção de objetos, artefatos manufaturados ou fabricados em série, os quais, quando expostos nas vitrines ou prateleiras, são facilmente identificados pelos códigos de barra ou pelo carimbo da data de validade. É fundamental que resgatemos o estudo, "elo perdido entre o ensino e a aprendizagem", mas não nos esqueçamos do Homem.

A escola deve, antes, distinguir claramente deveres de direitos, garantindo aos discentes e aos docentes o acesso ao ensino de qualidade. Para isso é preciso saber diferenciar o Ser do objeto. Desse modo, talvez, a escola brasileira possa ter um quadro diferente deste que, para alguns, parece "normal". Ambientes em que prevaleçam cobranças demasiadas, jornadas laborais hercúleas, atitudes inadequadas, constrangimentos, retaliação etc não coadunam com o sentido lato de Educação.

Por isso, ratificamos: o ambiente escolar não deve ser um quadrado inflexível. Há pontos fortes e fracos, mas, para desvelar isso, é necessário diálogo, talento que diferencia o homem não só dos vegetais, mas também das feras. Assim, a maior estupidez, em quaisquer ambientes, especialmente no ambiente escolar, é abandonar o diálogo e a "pessoa humana", se quisermos recorrer a um jargão do Direito.

Luciene Lemos de Campos é Mestre em Estudos Fronteiriços pela UFMS, Câmpus do Pantanal, em Corumbá; atua como professora da rede estadual de ensino de Mato Grosso do Sul, há mais de 20 anos, lecionou em Corumbá (1987 a 2010) em escolas públicas, particulares, cursos preparatórios e na UFMS.

 

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