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Leia artigo "Mato Grosso Júnior", de Mauri Valentim Riciotti

Fonte: Mauri Valentim Riciotti* em 07 de Fevereiro de 2011

O nome é um bem inalienável do seu titular. Sua importância transcende o interesse da própria pessoa. Aliás, é obrigatório o seu registro formal em cartório. Serve, portanto, para identificar seu possuidor e diferenciá-lo dos demais. É uma marca que vai acompanhá-lo até a morte. Cabe a cada um mantê-lo íntegro, sem mácula, limpo, sob pena de submeter-se aos ditames da lei ou às recriminações morais impostas pelo meio social.

Muitos pais, desde a antiguidade, remontando aos tempos das monarquias - quando os nobres imperavam - preferiam atribuir seus próprios nomes aos filhos. Se naquela época tal medida tinha lá sua justificativa, pois a hereditariedade era o critério adotado para sucessão de bens e títulos, hoje em dia perdeu sua importância. Nada contra quem ainda prefere essa prática, mas muitos pais já foram surpreendidos por condutas reprováveis praticadas por seus "pimpolhos".

Da mesma forma, alguns filhos já experimentaram o lado negativo de possuírem os mesmos nomes dos pais, como nas hipóteses de homens públicos ou empresários conhecidos, que foram presos por crimes hediondos. Talvez seja mais prudente, atualmente, cada um ter o seu próprio nome.

Nessa linha de raciocínio, quando da divisão do Estado de Mato Grosso, a escolha do nome do novo ente da federação como sendo "Mato Grosso do Sul", talvez tenha recebido a mesma inspiração. Já que o novo era "filho" do antigo, pensaram que seria de bom tom apor-lhe o mesmo nome do "pai". E, para diferenciá-lo, não caindo bem "Júnior" ou "Filho", escolheram "do Sul".

A confusão foi inevitável. Se ela é corriqueira para muitos - do norte ou do sul - com muito maior razão para as pessoas dos outros Estados. Passados mais de 30 anos desde a divisão, nós, sul-matogrossenses - de nascimento ou por adoção - sentimo-nos desprestigiados quando uma autoridade ou celebridade, de fora, ignora o "do Sul". E nem sempre estamos presentes para corrigir imediatamente a gafe desses desavisados, gritando "DO SUL". Dá para imaginar que, em muitas situações, quando algum pleito nosso está em discussão, esse erro acaba nos prejudicando.

Recentemente, o assunto veio à tona quando o personagem de uma novela global, ao afirmar que iria fazer uma viagem à Mato Grosso, aproveitaria para "passar em Bonito". Bem desagradável para todos nós. Mas a confusão é recorrente. Invariavelmente "os estrangeiros" só fazem referência ao nosso Estado como sendo Mato Grosso.

É bem provável, em face da imensa audiência da novela, que muitos, desejando conhecer Bonito, acabem indo parar no nosso vizinho do norte. E não adianta dizer que é falta de cultura do povo ou que uma grande campanha de marketing irá resolver a questão. A culpa continuará sendo nossa, pois no registro de nascimento, não tivemos criatividade e preferimos registrar o filho com o nome do pai.

Não resta dúvida de que essa situação não beneficia Mato Grosso do Sul, muito pelo contrário, pois o prejuízo é só nosso. Estamos identificados tão somente internamente. Quando saímos do Estado, somos Matogrossenses. Não temos identidade. Por mais que tentemos corrigir, não adianta. O erro é muito mais forte. Só há um caminho a perseguir: a mudança do nome. Por mais dolorido que seja, parece não haver alternativa.

Bem, alternativa há, permanecer como está e continuar a sofrer as consequências dessa confusão. E diferente de um filho que leva o nome do pai, porque algum dia restará só ele - caso a vida siga o caminho natural e o pai venha a falecer primeiro - o nosso Estado sempre será o "Júnior", pois seu pai, por certo, também permanecerá vivo.

*Mauri Valentim Riciotti é Procurador de Justiça. (mauri_riciotti@hotmail.com).

 

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