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Com cancelamento de festa, devotos devem seguir orientações da Saúde e celebrar São João em casa

Leonardo Cabral em 10 de Junho de 2020

Leonardo Cabral/ Diário Corumbaense

Diretor-presidente da Fundação de Cultura, Joílson Cruz, reforçou orientação da não descida de andores ao Porto

Como já anunciado, a festa de São João, tradição secular em Corumbá e celebrada na noite do dia 23 para 24 de junho, está cancelada por causa da pandemia do novo coronavírus. O momento é de cautela em relação à doença, que atinge a população de todo o mundo. 

E para reforçar as medidas de prevenção e combate à covid-19, a Fundação da Cultura e do Patrimônio Histórico e Secretaria de Saúde de Corumbá, reuniu mais de 90 festeiros, devidamente cadastrados, na noite de terça-feira, 09 de junho, no ginásio Lucílio Medeiros, obedecendo todas as recomendações, como distanciamento e uso obrigatório de máscaras.

O momento proporcionou o encontro de boa parte dos festeiros acostumados a se verem na Ladeira Cunha e Cruz, durante o trajeto percorrido com os andores de São João em meio à multidão até a prainha do Porto para o banho da imagem do santo. Com a pandemia, a Prefeitura cancelou a festa e decretos municipais, em vigor desde março, proíbem aglomerações e o toque de recolher vai das 21h às 05h. 

O diretor-presidente da Fundação de Cultura, Joílson Cruz, enfatizou que o Porto Geral não terá nenhuma estrutura física este ano e que a recomendação é que os festeiros não desçam com os andores, pela primeira vez, em mais de 130 anos de ritual.

“Entendemos o momento da religiosidade e o que o ato de banhar o santo representa, mas é preciso seguir as recomendações da Secretaria Municipal de Saúde”, explicou Joílson. “O importante é que os festeiros façam sua devoção em casa, sem aglomeração e que não desçam para o Porto. Precisamos sim, manter a tradição e a fé, porém, mais importante é que possamos nos preservar. Que todos tenham a consciência de que nesse momento precisamos disso”, completou Joílson.

Ele também informou que este ano o repasse em dinheiro aos festeiros foi cancelado. “A estrutura física do Porto não teremos, bem como o repasse aos festeiros, pois não podemos estimular a situação e ir na contramão daquilo que a administração vem fazendo para o combate ao novo coronavírus”, pontuou.

Leonardo Cabral/ Diário Corumbaense

Secretário de Saúde, Rogério Leite, disse que cartilha será entregue com orientações para festa em casa

Já o secretário de Saúde, Rogério Leite, foi enfático ao dizer que sabe da importância desse ato religioso, mas o momento não é de festa. “É uma decisão difícil que o poder municipal está tomando. Sabemos que uma festa dessa gera emprego direto e indireto, e o mais importante de tudo isso é a fé e a crença de todos, principalmente dos devotos, mas num momento desse de pandemia temos que pesar, começar a equacionar todas as situações e rever a segurança e assistência a cada cidadão corumbaense. E é nisso que estamos empenhados, em assegurar a vida e a saúde das pessoas e tentar construir em uma próxima etapa um grande São João, para que a gente possa realmente celebrar a vitória frente à covid-19”, falou. 

O secretário ainda destacou que o momento é de responsabilidade civil, individual e coletiva. "Não haverá descida dos andores, mas a fé, a crença e nem a tradição vão acabar. Simplesmente é um momento que vamos deixar de fazer, para dar segurança às nossas famílias. A novena pode ser feita em casa, mas seguindo a cartilha de biossegurança que todos receberão com as orientações essenciais." 

São João não é só festa, é religiosidade

Atentos às recomendações em relação a não descida dos andores e também à celebração em casa, boa parte dos devotos que participaram do encontro, ressaltou que a fé e religiosidade a São João.

Devota há anos, Joaquina Medeiros Pereira, de 64 anos, disse que desde que a pandemia foi declarada, já tinha decidido não descer com o andor. “O importante é a fé e devoção. Eu já tinha dito que não desceria. De maneira alguma, o importante é rezar, vai na frente do andor e reza. Meu andor já está arrumado desde o dia 13 de maio. Temos que entender que o momento é de não comprometer toda uma situação. Na minha casa apenas eu, meu filho e uma afilhada, vamos estar fazendo a novena”, afirmou Joaquina Medeiros que realiza a festa de São João no bairro Aeroporto.

Leonardo Cabral/ Diário Corumbaense

Maria Divina vai fazer a reza em sua casa

Com o mesmo pensamento, Maria Divina, moradora no bairro Guatós, também irá acatar a recomendação e apenas fazer a reza em sua casa, mas sem deixar de banhar a imagem a quem tem tanta devoção e agradecimento por graças alcançadas.

“A devoção a São João começou ainda criança, com meu pai. Logo depois da partida dele, dei continuidade à festa. São João representa todas as graças alcançadas. Se não tem descida para o Porto, vou fazer o banho da imagem do santo durante a reza em casa. Temos que ir nos adaptando. É melhor assim, para não termos complicação e que possamos pedir bênçãos, que ele (São João) nos dê a graça de sair dessa situação”, contou Divina ao ressaltar que em sua celebração não terá mais do que 15 pessoas.

Leonardo Cabral/ Diário Corumbaense

Há 56 anos mantendo a tradição, festeira Regina Concha reforçou que momento é de religiosidade, devoção e fé

Há 56 anos louvando São João, uma tradição enraizada na família e que vem passando de geração para geração, a devota Regina Concha, também vai se adaptar aos tempos de pandemia. “Este ano não vai ser possível descer para o Porto, mas quero ter uma missa e fazer a reza em casa. O momento não representa apenas a festa. Somos devotos, o que tem que prevalecer é a fé, religiosidade. É a fé que nos permite”, afirmou ao Diário Corumbaense.

A devota ainda disse que haverá novena e café da manhã também, tudo dentro das recomendações da Saúde. “À noite vamos fazer a reza, levantar o Mastro. Fazer todo ritual dentro de casa, até mesmo o banho. São João é santo milagroso, sempre na hora que mais precisamos, somos atendidos. É um santo de devoção da família. É tradição de pais para filhos, era da minha avó, passou para minha mãe, depois minha irmã, mas todos partiram, infelizmente, e eu segui com essa tradição e espero que meus filhos, netos possam dar continuidade a devoção”, pediu.

A história

Segundo historiadores, a tradição do Banho de São João foi introduzida na região por volta de 1882. O ato de levar a imagem do santo em procissão ao Porto Geral, uma das referências históricas da cidade, é movido pelas crendices, superstições e fortes emoções. Dizem os mais antigos que o banho renova as forças do santo e abençoa tudo o que se relaciona a água com o homem.

A louvação ao santo tem dois momentos marcantes, durante a procissão pelas ruas da cidade. Ouve-se primeiro a ladainha: “Deus te salve João/Batista sagrado/O teu nascimento/Nos tem alegrado”. Logo, a banda imprime um ritmo carnavalesco e o povo pula de alegria, cantando: “Se São João soubesse que hoje era o seu dia/ Descia do céu à terra/Com prazer e alegria”.

Durante o banho, o povo entra na água, toca a imagem, se percebe a religiosidade dominante. Aos gritos de “Viva São João”, escuta-se batuque da umbanda na beira do rio, anunciando a presença de entidades num grande terreiro. Os pagadores de promessas se ajoelham com emoção e fé fervorosa. O andor retorna para a casa do festeiro, subindo a Ladeira, onde é tradição cumprimentar quem desce, até a madrugada do dia 24.

Anderson Gallo/Arquivo Diário Corumbaense

Pela primeira vez, em mais de 130 anos, banho da imagem de São João não será realizado nas águas do rio Paraguai

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