PUBLICIDADE

Caminhada lembra um ano da trágica morte da professora Nádia Sol

Leonardo Cabral em 10 de Março de 2020

Anderson Gallo/Diário Corumbaense

Caminhada percorreu o centro de Corumbá e terminou no Jardim da Independência

Foi realizada na manhã desta terça-feira, 10 de março, Caminhada Pela Vida em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, celebrado no dia 08 de março. O evento também lembrou o primeiro ano da morte da professora Nádia Sol, assassinada com mais de 30 facadas pelo ex-companheiro, no dia em que fazia aniversário. A mãe de Nádia, Maria Inês Sol Neves e familiares participaram do ato. 

Com cartazes, faixas e bandeiras brancas, alunos de escolas particulares, municipais e estaduais de ensino, representantes da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e de segmentos da sociedade, foram às ruas pedir maior rigor no combate à violência contra a mulher. 

Anderson Gallo/Diário Corumbaense

Arlene Inez de Carvalho Costa, presidente do CMDM

A mobilização foi realizada pelo Conselho Municipal dos Direitos da Mulher. “Resolvemos fazer a caminhada hoje, 10 de março, porque se completa um ano da morte da Nádia. Um crime que chocou a nossa cidade. Além disso, como é o mês da mulher também fizemos essa alusão ao Dia Internacional da Mulher, onde pedimos uma reflexão sobre os crimes bárbaros sofridos por mulheres, vítimas de feminicídio, chamando o homens a participarem dessa grande luta também”, explicou Arlene.

Ela ainda ressaltou a presença de estudantes, crianças e adolescentes, na caminhada. “Trabalhar a conscientização e prevenção é a melhor saída. Eles acabam se tornando multiplicadores contra esses crimes que tanto chocam a sociedade”, disse Arlene frisando que só nesses primeiros quatro meses de 2020 já foram registrados mais de 50 casos de violência doméstica em Corumbá. “Em boa parte deles, homens batendo em mulheres de forma brutal”, mencionou.

Anderson Gallo/Diário Corumbaense

Com cartazes, estudantes pediram maior rigor no combate à violência contra a mulher

Entendendo o recado, a estudante Ludmylla da Costa Alves, de 15 anos, falou que estar no ato foi muito importante. “Chega de violência contra a mulher. O respeito tem que existir. Esse ódio por parte dos agressores tem que acabar. É preciso respeitar. Não queremos mais mulheres mortas em nossa cidade”, declarou.

Sabendo da caminhada, o jovem Pedro Celso Sampaio da Silva, resolveu participar ao lado do irmão, que cursa a Educação de Jovens e Adultos (EJA). “Meu irmão comentou e resolvi vir participar da caminhada. Pois, acredito que representa os esforços de todos nós nessa luta contra crimes cometidos contra mulheres. Elas têm que ser respeitadas”, destacou.

A caminhada percorreu a rua Frei Mariano, principal via do Centro de Corumbá e se encerrou no Jardim da Independência, onde foi realizado um ato ecumênico, com a presença de representantes da igreja católica, evangélica e espiritismo.

Um ano de dor

Emocionada, a mãe da professora Nádia Sol, agradeceu a homenagem feita em memória da filha. “O que era para ser um dia de alegria pelo aniversário dela, virou tristeza”, afirmou Maria Inês.

Ela também ressaltou que os últimos 365 dias estão resumidos em três palavras: dor, saudade e tristeza. Não contendo as lagrimas ao lembrar da filha, a mãe, que convive apenas com as lembranças de uma mulher alegre e batalhadora, comentou ao Diário Corumbaense que desde que recebeu a notícia da partida da filha, está aprendendo a viver sem ela.

“Quando me falaram da morte da minha filha, me senti mutilada, senti que me arrancaram um pedaço. Meu mundo desabou ainda mais pela maneira com que a vida dela foi tirada, pelo simples sentimento de querer seguir a vida dela de forma alegre, lutando por aquilo que ela sempre desejou conquistar pelo esforço próprio. Foi e segue sendo um dos momentos mais tristes da minha vida. Não é fácil”, disse Maria Inês.

Anderson Gallo/Diário Corumbaense

Maria Inês, mãe da Nádia Sol, disse que esse um ano se resume em dor e saudade

Ela ainda lembrou que tentou levar a filha embora para Campo Grande antes do crime. “Disse para ela vir embora, mas como ela gostava de Corumbá resolveu ficar e infelizmente isso veio acontecer. Foi um crime brutal. Uma vida interrompida. Eu fiquei sem minha filha e minhas netas sem a mãe. Ainda mais elas, não só pela dor, mas pela carinho e amor, sentimento que elas não vão mais ter da mãe”, comentou emocionada.

Sobre o autor do crime, Maria Inês disse apenas que o sentimento é de revolta. “No dia que aconteceu o crime, ele ainda ligou para a minha casa, mas eu não quis atender. Procuro nem lembrar dele, pois a revolta é grande."

“Que diante desse cenários, as mulheres possam denunciar. Não devem se calar. Qualquer tipo de violência, seja ela verbal ou física, tem que ser denunciada. Não queremos mais mãe chorando pelas suas filhas e filhos chorando pela partida das mães. É preciso respeitar, tanto homem, como mulher. A dor fica, mas a vida segue”, finalizou Maria Inês se referindo à importância da caminhada.

Em 2020, até este mês, 46 casos de violência doméstica foram registrados pela Polícia Militar de Corumbá. Em Ladário, já são  10 casos. Em 2019, Corumbá teve um total de 199 casos e Ladário, 48. Já o Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Corumbá (CMDM) informou que os números de violência contra a mulher na cidade ultrapassaram 50 casos neste ano e que em 2019 foram mais de 3 mil denúncias, fora os que ainda não são registrados pelo fato de a mulher ter medo de procurar ajuda.

Caso Nádia

A professora Nádia Sol Neves Rondon, de 38 anos, foi morta com 36 facadas. O crime aconteceu no dia 10 de março, dia do aniversário da vítima, de 2019. Ela havia saído com amigas para comemorar o aniversário e quando retornou para casa, na alameda Adelina, bairro Universitário, foi atacada pelo ex-companheiro, Edevaldo Costa Leite, na época com 31 anos, que não aceitava o fim do relacionamento.

Os golpes atingiram as costas, tórax, rosto e braços. Testemunhas ainda disseram que viram o homem arrastando a vítima pelos cabelos para a rua e logo acionaram a Polícia Militar.

Reprodução/ Facebook

A professora Nádia Sol foi morta pelo ex-companheiro no dia de seu aniversário

Os bombeiros foram chamados, prestaram o atendimento emergencial e depois a removeram para o pronto-socorro. Em seguida, a professora foi encaminhada para o centro cirúrgico da Santa Casa de Corumbá, mas não resistiu. 

Edevaldo Costa se apresentou no 1º Distrito Policial e foi preso por feminicídio, cuja pena varia de 12 a 30 anos de cadeia. Ele relatou que havia visto a professora com outra pessoa e isso teria motivado o crime. No entanto, amigos de Nádia contaram que ele já vinha perseguindo-a, chegou a furar os pneus do carro dela e foi visto rondando a casa da vítima, o que reforça a tese de crime premeditado. Ele está preso no Estabelecimento Penal Masculino e ainda não foi julgado pelo crime. 

Nádia Sol, que lecionava na Escola Municipal Pedro Paulo de Medeiros, foi velada por algumas horas em Corumbá e sepultada em Campo Grande.

PUBLICIDADE