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Com o uso da tecnologia, paciente com câncer que perdeu a voz, volta a se comunicar

Leonardo Cabral em 13 de Março de 2019

Anderson Gallo/Diário Corumbaense

Entusiasmado, Roberto recebe instruções para a utilização do tablet

Já pensou ser diagnosticado com câncer de laringe e perder a voz e nuca mais falar? Este fato aconteceu com o paciente Roberto Carlos Marques de Mello, de 53 anos. Há dois anos, ele vem enfrentando essa batalha, que hoje, apesar de todo sacrifício passado, não o desanima.

Muito disso se deve à sensibilidade da estudante de enfermagem, Cynthia Lanzetti, que também atua como voluntária da Rede Feminina de Combate ao Câncer, que através da tecnologia, viu a possibilidade de propiciar melhor qualidade de vida a Roberto, que até então, tinha como companheiros inseparáveis uma caneta e inúmeros cadernos, bem como também os pequenos gestos para se comunicar com as pessoas.

A estudante contou ao Diário Corumbaense que estava em sala de aula quando a professora passou conteúdo que informava sobre aplicativos que facilitavam a comunicação em pacientes com câncer e que tinham perdido a voz. Foi então que ela de imediato pensou que poderia reverter a situação enfrentada por Roberto.

“Quando vi a explicação em vídeo, logo me veio na cabeça o Roberto. Até porque já sabia que existiam aplicativos que auxiliavam na fala, pois como tenho formação em Letras, usei já isso com meus alunos em sala de aula para tradução de textos e deu certo e ao ver a explicação, pensei em colocar em prática essa ideia com ele”, contou a estudante. Mas para que desse certo, era necessário um tablet, que possibilitasse a instalação do aplicativo. O aparelho seria a sua voz novamente.

Anderson Gallo/Diário Corumbaense

Cynthia disse que logo após assistir a aula, pensou na ajuda a Roberto

Foi então que a jovem lançou nas redes sociais e também junto a amigos a “vaquinha solidária”, uma forma de arrecadar e arcar com os custos do aparelho, que, além disso, necessitava de um chip, internet e também uma caixa de som que serve para emitir a voz do aplicativo nas palavras que Roberto escreve no aparelho.

“Os custos são altos, pesquisamos os preços do que de fato iríamos necessitar e então demos início à arrecadação. Mas para a minha surpresa, ao saber o que estávamos fazendo, o militar da Marinha, Filipe Augusto Vital, me procurou e disse que tinha um tablet para doar. Não pensei duas vezes e logo aceitei”, mencionou Cynthia que agradeceu o gesto do militar e ainda fez questão de mostrar para a reportagem a quantia arrecadada até o momento no valor de R$ 465,00.

O montante ficará guardado até que se chegue ao valor de R$ 800,00, preço para outro tablet. “Esse aparelho que está com Roberto veio em boa hora, servirá para que ele possa se adaptar com a nova maneira de se comunicar. Porém, precisamos comprar um tablet que possa oferecer uma configuração ainda mais avançada, já que de fato, o paciente só poderá manter contato de voz através do aplicativo disponibilizado para ele”, explicou.

“Elas são anjos em minha vida”

É com essa frase que Roberto se refere à Cynthia e à fonoaudiólogo Lizandra Soares Garcia que também acompanhou a entrega do aparelho ao paciente. E por meio da tecnologia, Roberto estreava não apenas o tablet, como também pode dar entrevista a este Diário, através de sua nova ferramenta de comunicação. Emocionado, ele disse estar passando por um momento de felicidade, apesar de todo o sofrimento enfrentado desde a descoberta do câncer.

As tecladas ainda são lentas, mas pouco a pouco, Roberto vai se familiarizando com o tablet e os seus pensamentos vão ganhando voz pelo aplicativo.

Anderson Gallo/Diário Corumbaense

Roberto pouco a pouco vai se acostumando com a nova maneira de se comunicar

“Quando descobri o câncer e passei por todo o processo que ainda enfrento, tive vontade de não mais viver. Mas com a ajuda de amigos e dessas duas 'anjas', percebi que a vida é muito mais importante e teria muito mais que aproveitar dela. No entanto, estou aqui vivendo essa nova fase”, afirmou Roberto.

O câncer foi descoberto há dois anos. Ele revelou que durante toda a sua vida, foi fumante. “Comecei a fumar aos 14 anos, ingeri muita bebida alcoólica e usei drogas, fatores que possivelmente me levaram a esta situação. Hoje não vejo o porquê de lamentar, agora é viver com mais gosto”, disse com um sorriso estampado no rosto enfatizando seu amor pela pesca e pelo rio Paraguai. “Vivia da pesca e adorava nadar no rio Paraguai, agora sei que será demorado até voltar tudo novamente, mas estou feliz”, ressaltou.  

Roberto fez laringectomia total e isso implicou na perda da voz fisiológica e em traqueostomia definitiva, ou seja, foi realizada a abertura de um orifício artificial na traqueia, abaixo da laringe, servindo como seu canal de respiração.

Com o tablet há melhora de 300% no tratamento

A fonoaudióloga Lizandra Soares afirmou que com a utilização da tecnologia, o processo de reabilitação aumenta em 300%. Porém, a volta da voz de Roberto, não irá ocorrer.

Anderson Gallo/Diário Corumbaense

Lizandra disse que com o tablet, a reabilitação melhora em 300%

Além da importância no processo de recuperação e devido ao diagnóstico final, as consultas relacionadas a reabilitação da comunicação seriam suspensas, devido a nada mais a ser feito. Mas o gesto de preocupação e amor ao próximo de Cynthia Lanzetti possibilitou a continuidade.

“Só pelos processos passados por ele, Roberto é um exemplo de paciente e no tratamento da doença. Por nada mais poder ser feito no sentido da comunicação, de fato o tratamento seria interrompido, porém agora com essa nova ferramenta e possibilidade, daremos continuidade à reabilitação, importante para ele mesmo com o uso da tecnologia que estimula crescimento em 100% no tratamento”, explicou Lizandra.

A doença

A laringe é a parte da garganta que contém as cordas vocais e participa da fala, mas tem outras importantes funções como a respiração e a proteção dos pulmões da aspiração de alimentos na deglutição. A laringe pode ser acometida por um dos cânceres mais comuns a atingir a região da cabeça e pescoço, representando cerca de 25% dos tumores malignos que acometem esta área e 2% de todas as doenças malignas. Aproximadamente 2/3 desses tumores surgem na corda vocal verdadeira e 1/3 acomete a laringe supraglótica (ou seja, localizam-se acima das cordas vocais).

Há uma nítida associação entre a ingestão excessiva de álcool e o vício de fumar com o desenvolvimento de câncer nas vias aerodigestivas superiores. O tabagismo é o maior fator de risco para o desenvolvimento do câncer de laringe. Quando a ingestão excessiva de álcool é adicionada ao fumo, o risco aumenta para o câncer supraglótico.

Vaquinha solidária continua

Como já informado, a arrecadação até agora é de R$ 465,00. O objetivo é chegar até os R$ 800,00, para a compra de outro aparelho. Quem puder ajudar, qualquer valor é bem-vindo e pode ser depositado na conta da Rede Feminina de Combate ao Câncer: Agência da Caixa - 0018 / Conta- 2462-0; CNPJ/ 07.9648370001-08.  

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