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Por dentro da folia - Aos poetas, com carinho

Victor Raphael (*) em 21 de Fevereiro de 2020

Existe uma máxima no universo do carnaval – Quem vê a alegria não vê a dor que foi realizar. Isso se estende por vários segmentos de uma escola de samba. Seja o diretor de harmonia, que faz o papel de chato, forçando o cortejo a andar ou a parar, nem sempre pela mísera vontade do folião; a Porta-Bandeira que, além de cuidar do pavilhão da agremiação, ainda tem que suportar o peso considerável que tem a sua indumentária; ou ainda o Mestre de Bateria que deve afinar instrumento por instrumento, a ponto de sair um som perfeito, e ainda torcer para que não haja falha do corpo da bateria, pois mesmo sendo um componente a errar, é ele quem vai levar a culpa do ocorrido. Cada função na escola de samba tem seu peso definido. E em alguns recai mais a glória ou o fracasso do que em outros. Um desses casos de extremos é o compositor. 

O compositor de escola de samba, via de regra, recebe um conteúdo fechado, não raro com exigências e obrigações, que o mesmo deve ler, reler, realizar pesquisas e depois tentar transformar isso em uma música, com letra e melodia que favoreçam o quesito Harmonia e Evolução no grande dia. E além de tudo isso, buscar inspiração para que surja a canção que vai embalar todo um povo no dia dos desfiles. Essa é a tarefa de quem compõe para uma agremiação.

 

Não fica só nisso, seu apuro musical é constantemente testado: pelos comentaristas de carnaval, pelos seus dirigentes, pela sua comunidade, e, finalmente, pelos julgadores do quesito Samba-Enredo. Não é nada agradável passar por esses pontos constantes de tensão, e essa dura até a quarta-feira de cinzas, onde o Esplendor do Samba e as notas dos jurados é que vão dizer o seu índice de sucesso ou fracasso no ano.

 

Sob o risco de esquecer de alguém (e devo esquecer, de fato), o samba corumbaense está repleto de histórias nas composições. Nomes como Elói e Ruizinho do Flor devem estar em qualquer texto que fale sobre as histórias do nosso carnaval. Esse ano, por exemplo, o samba de Serginho da Vila e João Luiz, estará novamente percorrendo a avenida, numa proposta de resgate que a Vila Mamona tenta trazer para o ano de 2020.


Mas veja como é o compositor, por dois exemplos muito fortes na Cidade Branca: Pedro Jorge de Castro, ou simplesmente Pedrão, é um dos maiores compositores que a cidade já viu. Muito bom na forma de estabelecer nuances melódicas durante o samba que compõe, o mesmo tem história registrada em várias (senão todas) as escolas de samba de Corumbá. Porém, de todos os sambas que Pedrão compôs, se destaca sempre o samba que o autor levou para a Império do Morro em 2006, sobre as mulheres. Onde toca é sucesso garantido e na boca do povo!

 

Num outro canto da cidade, João Batista Silva e Souza, o Jothabê, fez história na Vila mamona, ainda que compondo em outras agremiações a certa altura da carreira. Muitos dos títulos da Vila tiveram como trilha sonora as suas obras. Mas, seu hino fundamental, de acordo com a comunidade mamonense é sobre o número 13, que ficou famoso como o “Samba do Gato Preto”, que balança a galera quando é executado.


Tem outros tantos, que por um caminho ou outro fizeram parte do alcance que o carnaval corumbaense tem. Nas escolas de samba, temos Dirceu do Cavaco, o saudoso Marcos Cesar, Wellington, Sandro Nemir; ou ainda nos blocos de sábado, onde vemos despontar o talento de Nego do Cavaco para sambas deste segmento. Este humilde escriba fala com conhecimento de causa: Dos exatos 40 sambas feitos para o carnaval de Corumbá, o samba de 2011 ainda é o que atravessa o tempo e continua a balançar corações. Pude, nesses poucos anos, entender que a sua obra ou a sua ruína são linhas muito próximas. Você pode acertar tudo e com aquele errinho melódico que você deixou passar, a escola perder pontos preciosos, e assim, despertar a ira de uma comunidade, assim como a mesma entende quando um samba acontece, e o povo se torna uma extensão do som, propagando aos 4 ventos uma obra consagradora. 

Que seja também consagrador o nosso carnaval. Me despeço da coluna com a certeza de que o dever foi comprido e que possamos ter belíssimos, diferentes e animados desfiles na Avenida General Rondon!


(*) Victor Raphael é compositor e diretor da Liga Independente das Escolas de Samba.