Contra estereótipos e discursos equivocados, Feminismo ainda é movimento necessário

Lívia Gaertner em 08 de Março de 2018

Reprodução

Apesar de conquistas, mulheres ainda têm grande terreno a conquistar na busca pela igualdade

Um dia em todo mundo para não se esquecer que a igualdade entre homens e mulheres é uma luta antiga e de muitas protagonistas. Desde os casos extremos registrados na história como o que instituiu o dia 08 de Março em 1857, quando 129 tecelãs de Nova Iorque foram mortas carbonizadas dentro da fábrica onde trabalhavam porque organizaram uma greve por melhores condições de trabalho e contra a jornada de doze horas, até uma parente, uma vizinha que se deu conta de que não cabia aceitar uma situação de opressão, desvalorização e violência (não apenas física) pelo simples fato de ser mulher.

A história mostra o avanço com a conquista de direitos, dentre o mais emblemático, ao do voto, mas será mesmo que se mostrou eficiente, por exemplo, no campo político para trazer esse equilíbrio? Dados do Tribunal Eleitoral de Mato Grosso do Sul provam que as mulheres são maioria no eleitorado de Corumbá, mas entre os cargos eletivos do município não há nenhuma delas.

“Na política, muitas mulheres que estão vinculadas a partidos e saem como candidatas se submetem a situação de ser 'escada' para um candidato homem com a promessa de um cargo futuro, para cumprir a cota cobrada em lei nas candidaturas sem uma chance de competição igualitária com o homem”, observou Arlene Inez de Carvalho, vice-presidente do Conselho Municipal da Mulher de Corumbá.

A mulher também se mostra como a maioria em bancos universitários, mas as opções de vagas no mercado de trabalho e a própria questão salarial continuam como alvo de luta das mulheres contemporâneas, como frisou a professora universitária e vice-presidente da Subseccional da OAB em Corumbá, Maria Carolina Scheeren do Valle.

“Quanto mais se luta, mais se percebe a necessidade de lutar. Quanto mais percebemos que a mulher tenta se inserir no mercado de trabalho, vem conseguindo com mais frequência; quanto mais luta pela equiparação de salários e consegue com mais frequência, tenta se graduar melhor nas instituições, então me parece que quanto mais conquistas, mais campo de batalha se abre”, disse ao Diário Corumbaense ao prever que essa também há de ser a luta de muitas outras gerações ainda.

Anderson Gallo/Diário Corumbaense

Anne Andrea Moraes da Fonseca e Maria Carolina Scheeren do Valle pontuam que empoderamento é resultado de um movimento (feminismo) que precisa persistir na sociedade

Diariamente, as mulheres batalham para se firmar no mercado de trabalho, principalmente em posições de liderança. Segundo a FGV, apenas 7,4% das mulheres no mercado de trabalha ocupam posições de chefia, o que leva a crer que o “feminismo” o “empoderamento”, palavras muitas vezes usadas com estereótipos ou deturpadas dentro de discursos, fazem-se sim necessárias.

“O feminismo é um termo forte para demonstrar uma luta forte. Não é feminismo como algo sexista, mas é um movimento pela busca de espaço. Procura dentro dele mostrar que nós também somos capazes e podemos fazer a diferença. A gente vem de uma sociedade machista, desde que entendemos por gente é o homem que se sobressai sempre e a mulher tem que ser a submissa e, na verdade, não é isso”, ressaltou Maria Carolina.

A advogada Anne Andrea Moraes da Fonseca lembrou que dados mais recentes do IBGE provam que muitas mulheres, hoje, assumem a função de provimento do grupo familiar de forma exclusiva. Segundo ela, querer reduzir o feminismo à figura de uma mulher que prega ódio ao sexo masculino é a maior tentativa de enfraquecer o movimento que prega justamente acabar com escalas de valoração entre os gêneros. “Não é a mulher ser mais ou menos que o homem ou vice-e-versa, é apenas que os direitos sejam iguais na prática”.

Rosiene do Espírito Santo Mauro, presidente do Conselho Municipal da Mulher de Corumbá afirmou que a luta feminista, hoje, é feita enveredando-se os campos da Educação, da forma de uma consciência na sociedade cuja arma é o diálogo.

“Buscamos esses direitos iguais, uma educação não sexista. Educar, ter esse cuidado em não aceitar brincadeirinhas em rodas de conversas, não concordar com músicas que denigrem a condição feminina, é mostrar o outro lado sem briga porque feminismo não é agressão, é educação e que acontece de forma lenta na consciência de uma sociedade ainda muito machista”, explicou.

Unidas e empoderadas

O campo para essa mudança ainda é muito vasto se levarmos em consideração que as raízes de uma cultura de séculos, onde o homem é o grande privilegiado, ainda permanecem nesse consciente coletivo, atingindo inclusive as próprias mulheres.

“Existem muitas mulheres que não são sensíveis ao seu próprio gênero, enquanto há homens que somam conosco. Nos órgãos públicos, infelizmente ainda acontece muito, de aquela mulher que está num patamar mais elevado ser julgada por outras mulheres. Surge aquele discurso: 'Ah, se fulana conseguiu tal cargo é porque ela é jovem, se eu tivesse 20 anos a menos, também conseguiria'. Isso é uma forma de agressão, de mulher para mulher. Nós, mulheres temos muito que trabalhar isso também. Quando estamos num debate nosso discurso é um e as atitudes outras, então tem que ser esse trabalho constante”, observou Arlene de Carvalho.

Anderson Gallo/Diário Corumbaense

Integrantes do Conselho da Mulher de Corumbá destacam que machismo trazido há séculos ainda persiste

E o empoderamento? É apenas conquistar funções de liderança, cargos e funções que evidenciem a mulher? Do que se fala ao certo quando vemos essa expressão sendo utilizada? As entrevistas esclarecem que o termo tem muito mais a ver com postura diante do mundo do que status como algumas pessoas o deturpam ou ainda banalizam ao usá-lo indiscriminadamente em discursos diversos.

“O empoderamento é a conscientização somada a atitudes, mostrando que não concordamos com tudo isso que acontece no cotidiano. É mais do que a consciência, é a atitude diante das situações sem medo de ser oprimida”, resumiu Rosiene do Espírito Santo Mauro.

“O empoderamento é fruto desse movimento que há muitos anos a mulher vem se colocando e mostrando que também pode estar em qualquer ambiente e trabalhar de qualquer forma que outra pessoa. Conforme ela consegue se mostrar mais forte, esse psicológico e também o coletivo é reforçado. A força de uma mulher vai repercutir a força de outras. Uma mulher forte é capaz de fazer com que uma série de outras mulheres se sintam fortes ao redor dela”, descreveu Maria Carolina sobre a união que precisa haver entre as mulheres.

A advogada ressaltou também que adquirida essa consciência, ela se multiplica seja por esse contato entre mulheres de uma mesma geração ou então para aquelas que estão em formação e que vão levar desde cedo uma nova forma de se posicionar no mundo.

“A primeira coisa que tem que ser trabalhada numa menina é a questão de autoestima e não estou falando de beleza, estou falando em acreditar em si mesma sob qualquer circunstância para passar de cabeça erguida. Mulheres empoderadas são capazes de formar meninas empoderadas. Você formar uma mulher que acredite em si mesmo, que tenha força, que não se deixe levar por situações na escola é um legado para outras mulheres, outras gerações”, concluiu.

 

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