Museu cria novo espaço dedicado à história do negro no Pantanal

Lívia Gaertner em 15 de Novembro de 2017

Um povo que tem profunda ligação com a formação da identidade pantaneira, corumbaense, e que ainda não tinha sua história registrada em espaço dedicado a contar a formação do homem que habita esse rincão alagado do país, considerado um dos patrimônios da Humanidade.

O negro, não diferente do que aconteceu no resto do país, chegou às terras pantaneiras por meio de uma das maiores mazelas da sociedade brasileira: a escravidão. É o que atesta a pesquisa realizada pela professora doutora Eliane Cancian, do Campus do Pantanal, unidade da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul em Corumbá.

A docente foi convida pelo Muhpan – Museu da História do Pantanal a realizar pesquisa específica para atender ao projeto “Adequação Expográfica 2”, patrocinado pela Caixa Econômica Federal, que visa realizar modificações em partes da exposição do referido museu.

“Como sabemos que o museu tem que estar em constante transformação até porque da pesquisa, buscamos trazer a história do negro. Sempre que as pessoas visitam nosso museu se perguntavam por que a história do negro não era retratada dentro do museu, não existiu negro dentro do Pantanal? Então, foi nossa primeira sugestão”, explicou ao Diário Corumbaense, Ketylen Karine Santos, coordenadora do projeto, que teve início em março deste ano.

Divulgação

Palestra em escolas visa aproximar público de museu com novo conteúdo produzido

Segundo ela, o conteúdo produzido pela pesquisadora se diferencia por ser inédito e trazer a perspectiva do negro e não da elite dentro da evolução histórica na região pantaneira do século XVII até a Abolição da Escravatura.

“Com essa nova sala criada, pensamos transformar o conteúdo científico dentro do museu em acesso popular e para isso realizamos palestra dentro das escolas e, no caso essa palestra, visa aproximar o estudante para o interior do museu”, contou Ketylen sobre uma das estratégias de captação de público.

A pesquisa

A primeira escola a receber a ação educativa foi a estadual Carlos de Castro Brasil onde alunos do Ensino Médio ouviram da professora pesquisadora da UFMS as informações coletadas e as etapas do processo de investigação documental realizado tanto em Mato Grosso do Sul como no estado vizinho de Mato Grosso.

“Pretendemos mostrar à população corumbaense e outros visitantes do museu local, as atividades desenvolvidas pelos escravizados no universo urbano e rural corumbaense. Enfatizaremos a presença dos cativos nas propriedades rurais e nos espaços públicos e privados locais”, esclareceu Eliane Cancian ao ressaltar que os negros permearam todos os espaços do município.

Apesar da intensa participação do negro, os registros são poucos e demandaram um intenso trabalho de coleta e catalogação onde os primeiros datam do século XIX, conforme explicou a pesquisadora a este Diário.

“Iniciamos com a busca de manuscritos produzidos no século 19 e mantidos em arquivos da cidade de Corumbá. Utilizamos então, documentos específicos produzidos no âmbito do arquivo do Fórum de Corumbá e arquivo da Câmara Municipal e, ainda agregamos materiais desde a realização de pesquisa para atender à escrita de nossa dissertação de mestrado, orientada pela professora doutora Maria do Carmo Brazil e que resultou, posteriormente, na publicação do livro “A cidade e o rio: escravidão, arquitetura urbana e a invenção da beleza: o caso de Corumbá (MS)”, que mostra os africanos e os afrodescendentes cativos participando do cotidiano corumbaense dos anos Oitocentos”, disse.

O Mato Grosso integrado também esteve presente na pesquisa e, para a captura desses registros, a pesquisadora teve que se deslocar ao estado vizinho, onde em Cuiabá, encontrou vasto material.

“No arquivo Estadual de Cuiabá, permanecemos durante uma semana garimpando em muitas caixas com o objetivo de conseguir o máximo de pistas, indícios ou informações mais completas sobre a presença do negro em Corumbá. A grande quantidade de manuscritos existentes no local e o pouco tempo para arrolar os documentos com indícios da presença negra na nossa região exigiram escolhas imediatas”, contou.

A terceira etapa reservou à pesquisadora justamente a confecção de textos e análise dos documentos selecionados de forma a compor com coerência e linguagem similar aos demais conteúdos já instalados no Museu.

“Concluímos a leitura, transcrição e análise dos documentos. Foram produzidos textos específicos para atender a demanda do MUHPAN e, atualmente, toda a produção escrita está na gráfica responsável pela criação das imagens que farão parte do espaço no museu”, relatou.

A nova sala do Muhpan dedicada à história do negro na região pantaneira deve ser inaugurada ainda esse ano, de acordo com Ketylen Karine Santos, coordenadora do projeto.

O Museu da História do Pantanal está localizado na rua Manoel Cavassa, 275, Porto Geral de Corumbá, antigo prédio Wanderley Baís & Cia. Seu horário de funcionamento ao público é de terça-feira a sábado, das 13h às 17h30. 

Anderson Gallo/Arquivo Diário Corumbaense

Prédio onde funciona o Muhpan, no Porto Geral

Comentários:

MARIA DO CARMO BRAZIL: Elaine Cancian, meus cumprimentos...sementes plantadas na década de 1990 e agora já se pode colher frutos e promover novas semeaduras. O passado escravista de Corumbá foi intensamente repudiado pelos seguidores da história tradicional ou pela da velha escola positivista.Negaram a presença do negro nos mais remotos rincões do país, sobretudo no pantanal, na fronteira com a Bolívia. Mas, felizmente a história é inexorável, as fontes históricas (inventários post mortem, testamentos, cartas de alforrias, entre outras) revelaram a resistência do cativo através de rebeliões em fazendas pantaneiras, fugas para além fronteira e outros tipos de resistências. É como dizia Marc Bloch: "a obrigação de o historiador [é] difundir e explicar seus trabalhos....saber falar, no mesmo tom, aos doutos e aos estudantes, [pois] a simplicidade tão apurada é privilégio de alguns raros eleitos". Parabéns à minha querida e incansável historiadora.

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