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Após 10 dias internada, índia de 111 anos morre em Corumbá

Rodrigo Nascimento em 02 de Abril de 2012

Faleceu nesta segunda-feira, 02 de abril, a índia Júlia Caetano, de 111 anos. Ela vivia com o filho João Vicente, 66, em um pequeno porto na região da Barra do São Lourenço, distante quase 300 quilômetros da zona urbana de Corumbá. Dona Julia deu entrada na Santa Casa no dia 23 de março. Ela faleceu por volta das 08h30 desta segunda-feira. O corpo da índia centenária deve ser sepultado na aldeia Guató. A Fundação Nacional de Saúde (Funasa) deve realizar o translado nesta terça-feira.

Arquivo/Diário

Julia Caetano, de 111 anos, faleceu nesta segunda-feira na Santa Casa de Corumbá

Em julho do ano passado, o Diário contou a história da ribeirinha nascida no dia 20 de janeiro de 1901, que não falava nenhuma palavra em português, apenas a língua quase extinta dos índios guatós. Naquela época ela chegou a ficar internada na Santa Casa por conta de um quadro grave de desidratação. Julia foi medicada, ganhou roupas novas e teve o cabelo e as unhas cortadas. Ela foi medicada e, quatro dias depois retornou para casa numa lancha da Funasa.

Releia a matéria publicada no dia 27 de julho

Júlia Caetano não anda, ouve muito pouco e não fala, nem entende sequer uma palavra dita em português. A visão também foi bastante afetada pela ação dos muitos anos que viveu da caça e da pesca no Pantanal de Corumbá. Todas estas limitações hoje a mantêm presa a uma cama de solteiro, em um local isolado na região do rio São Lourenço,parte mais alta da planície pantaneira, distante quase 300 quilômetros da área urbana de Corumbá. A casa de uma única peça, sem água encanada ou energia elétrica, é dividida com o filho, Vicente Manoel, e dezenas de cães e gatos.

São estes animais que fazem companhia a indígena quando seu "caçula", de 66 anos, sai em busca de alimento. "A gente chegou aqui em 1964, depois que a fazenda foi abandonada pelos donos", contou Vicente. Ao redor do casebre, é possível notar resquícios de uma construção feita de alvenaria. As fundações, bastante amplas, permanecem intactas à ação do tempo. Já os tijolos ficaram restritos à beira do rio, onde formam uma barreira de contenção de água.

Arquivo Diário

Ela vivia com o filho, de 66 anos, na região da Barra do São Lourenço, quase 300 km de Corumbá

Dentro da casa, uma pequena fogueira, acesa próxima a cama, mantém a temperatura mais quente e ajuda a espantar um pouco os mosquitos. O pouco espaço em volta do colchão ocupado por dona Júlia é disputado pelos gatos. Do lado de fora, um outro fogaréu é usado para preparar a comida. Ao redor da fonte de calor se aconchegam os cães, e outro punhado de gatos. A convivência entre os animais parece bastante pacífica.

Penduradas pelas paredes, as zagaias são as principais ferramentas de defesa dos moradores do Porto Guató, como o local é conhecido. O objeto é um tipo de lança artesanal, bastante resistente e pontiagudo, usado antigamente na caça das onças. Bodoques - um tipo de arco que lança pedras, ao invés de flechas - também ficam distribuídos em várias partes do porto. "Aqui tem muita onça. Por isso os cachorros", explica "Mané", como Vicente afirma se chamar, apesar do documento de identidade trazer a ortografia correta.

No auge da cheia, a água chegou a entrar na casa de mãe e filho. O jeito foi suspender os poucos pertences em girais (taboas e pedaços de pau espalhados pelo chão, formando pequenas passarelas) e esperar. A ajuda para enfrentar estes meses de sufoco veio do Programa Social Povo das Águas. A primeira remessa de cesta básica, mantas, cobertores, casacos e a visita da equipe médica chegaramem maio.Na semana passada, a ação retornou ao norte do Pantanal e, consequentemente, à casa dos indígenas.

Centenária

De acordo com a Secretaria de Assistência de Corumbá, Júlia da Silva nasceu no dia 20 de janeiro de 1901. Completou 110 anos no início de 2011. Mas ela não tem nenhum documento pessoal consigo. Na cidade, as únicas provas da idade da indígena são um comprovante do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), datado de 30 de junho de 1999, e o Registro Indígena. O primeiro mostra que Júlia está registrada no livro 01, folha 03, do Cartório de Registro Civil da cidade, sob o número 0691. O outro, original, traz o nome dos pais da indígena: João e Inácia Caetano.

 

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