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Em júri transmitido pela internet, assassino da professora Nádia Sol é condenado a 22 anos de prisão

Leonardo Cabral em 21 de Outubro de 2020

Leonardo Cabral/ Diário Corumbaense

Júri popular foi considerado histórico por ser transmitido pelo Youtube

Edevaldo Costa Leite, de 32 anos, foi julgado culpado pelo tribunal do júri, que aconteceu na tarde e noite desta quarta-feira, 21 de outubro, no Fórum de Corumbá, pela morte da professora Nádia Sol no dia 10 de março de 2019, quando completou 38 anos de idade.

Ele vai cumprir pena de 22 anos de prisão em regime fechado, conforme o julgamento, considerado histórico para a Justiça local, já que, por causa da pandemia da covid-19, foi o primeiro a ser transmitido pelo Youtube, por meio da página Tribunal do Júri de Corumbá.

O júri popular contou com a participação de três homens e quatro mulheres, escolhidos por sorteio. Após quase seis horas e meia de julgamento, eles consideraram que Edevaldo tirou a vida da ex-companheira de forma torpe. A sentença foi proferida pelo juiz André Luiz Monteiro, da primeira Vara Criminal de Corumbá.

Edevaldo, que prestou depoimento ao magistrado e se recusou a responder questionamentos da Promotoria, foi retirado da sala e permaneceu aguardando o fim do júri em outro local. Ao juiz, ao ser indagado sobre o dia do crime, disse que a vítima havia feito dívidas em seu nome e, alegando ser espírita, afirmou que não se lembrava dos fatos.

Leonardo Cabral/ Diário Corumbaense

Em depoimento, Edevaldo alegou ser espírita e que não se lembrava dos fatos

A principal linha utilizada pela defesa de Edevaldo, feita pelo advogado Nivaldo Paes, foi baseada em uma eventual falha processual supostamente ocorrida na fase do inquérito policial. O defensor apontou que “não teve um trabalho bem feito por parte da Polícia Civil, na investigação (delegado responsável na época e médico legista), e acusou o Estado de não capacitar e dar recursos adequados para a investigação”. Além disso, o advogado alegou falhas no não recolhimento dos celulares, tanto da vítima como do réu, que poderiam revelar mais detalhes sobre o crime.

Foram ouvidas duas testemunhas pela defesa, sendo um jovem que havia presenciado a cena do crime e que estava na vila onde a vítima residia e foi morta e o ex-delegado, da Polícia Civil, Fernando Araújo, que participou por meio de videoconferência, pois está preso em Campo Grande, acusado do assassinato de um fazendeiro boliviano em Corumbá.

Leonardo Cabral/ Diário Corumbaense

Promotor Rodrigo Correa Amaro teve como linha de acusação o homicídio qualificado

Já a acusação, representada pelo promotor Rodrigo Correa Amaro, da 3ª Promotoria de Justiça de Corumbá, defendeu a tese de homicídio qualificado, asseverando que, conforme o inquérito policial, os fatos configuram as qualificadoras de emboscada, crueldade, motivo torpe e feminicídio. O promotor afirmou que Nádia não teve chance de se defender e que foi surpreendida ao chegar em sua residência, após sair de uma casa noturna, na qual celebrou o seu aniversário. Segundo Rodrigo Amaro, a vítima teria recebido, no mínimo, 38 facadas, e não 36, conforme citado anteriormente em fase de inquérito. Uma das testemunhas ouvidas contou que a vítima foi arrastada pelo cabelo em via pública enquanto o autor a esfaqueava. 

Ao ler a sentença, com Edevaldo Leite de volta ao Tribunal do Júri, o magistrado, André Luiz Monteiro, explicou que o réu foi condenado por homicídio qualificado, com a pena base de 16 anos e 3 meses de reclusão e também a 5 anos e seis meses, pelas qualificadoras de emboscada, crueldade, motivo torpe e feminicídio (violência doméstica).

O juiz ressaltou que o crime foge da normalidade, onde também condena duas crianças, filhas da Nádia, a crescerem sem a presença materna. Ele também dirigiu palavras à mãe de Nádia, que estava acompanhada da ex-sogra da vítima, do seu primeiro casamento, únicas da família que acompanharam o julgamento.

“Ninguém sai ganhando, a família perdeu a Nádia e a família dele o verá por muitos anos preso. Já a questão do recurso, não decidimos ainda, mas iremos conversar com a família do Edevaldo, e ver a possibilidade de recorrer ou não, à primeira vista não. Foi uma pena justa”, falou Nivaldo ressaltando que “meu trabalho foi técnico aqui e não sou a favor do feminicídio e de nenhum tipo de violência ou morte. Apenas fiz meu trabalho”, completou ao Diário Corumbaense.

Comoção

Ao ser lida a sentença de 22 anos de prisão em regime fechado, Maria Inês Sol Neves, mãe de Nádia, caiu em lágrimas. Agarrada a um terço, que foi sua companhia durante todo o julgamento, ela disse a este Diário que a “Justiça estava sendo feita”.

Leonardo Cabral/ Diário Corumbaense

Mãe e ex-sogra de Nádia, se abraçaram e choraram no fim do júri

“Não tem um dia que não passo pensando em minha filha. Estar aqui é a sensação de Justiça pelo o que aconteceu com minha filha. Vim de Campo Grande só para acompanhar o julgamento e saio daqui com um pequeno alívio, pequeno, pois minha filha não está mais aqui com a gente, mas a Justiça foi feita, que ele cumpra a condenação”, disse Maria Inês, que ao final do júri soltou o grito de Justiça e chorou muito.

Acompanhando a mãe de Nádia, a ex-sogra, avó das filhas da vítima, responsável hoje pelas crianças, descreveu Nádia, como uma “mãezona”. “As minhas netas todos os dias lembram dela. É psicólogo toda semana. Mas vamos vivendo”, contou.

O caso

A professora Nádia Sol Neves, foi morta no dia 10 de março de 2019, quando retornava para casa, após celebrar seu aniversário de 38 anos. O crime aconteceu por Edevaldo não aceitar a separação.

Ele esperou a vítima chegar em casa, na Alameda Adelina, bairro Universitário e a surpreendeu. Houve uma discussão entre os dois e, então, ele pegou uma faca que estava no batente da janela e desferiu as facadas na professora. Os golpes atingiram as costas, tórax, rosto e braços de Nádia.

Reprodução/ Facebook

Nádia foi morta no dia do seu aniversário, ao retornar de uma comemoração em casa noturna

Testemunhas ainda relataram que viram Edevaldo arrastando a vítima pelos cabelos para a rua e logo acionaram a Polícia Militar. Os bombeiros também foram chamados, prestaram o atendimento emergencial e depois a removeram para o pronto-socorro.

Ao dar entrada no atendimento medico, Nádia foi encaminhada para o centro cirúrgico da Santa Casa de Corumbá, mas não resistiu. O crime brutal chocou a população, em especial, alunos, professores, amigos, familiares de Nádia e organizações sociais, que depois de seu sepultamento também realizaram manifestação pelas ruas da cidade.

Edevaldo, na época se apresentou à Polícia Civil, foi indiciado por feminicídio e aguardava julgamento no presídio de Corumbá, para onde voltou após o fim do júri. 

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