Para quebrar o preconceito contra estilo, rappers corumbaenses se unem e lançam clipe

Lívia Gaertner em 12 de Junho de 2018

Fotos: Divulgação

Ideia de videoclipe surgiu durante Oficina de Cinema oferecida pelo FASP 2018

Eles resolveram praticar uma ideia muito difundida, mas nem sempre vivenciada. O rapper “Revolta” quis levar adiante o conceito de que “juntos podemos mais” e somou seu trabalho ao do grupo de rappers “Atentado Suburbano”. Mas não parou por aí. Para quebrar o preconceito que ainda orbita em torno do gênero musical, a saída também foi uni-lo a outra arte, potencializando assim a difusão de um movimento cultural que cresce cada vez mais em Corumbá.

Dessa forma, surgiu o primeiro clipe da junção de trabalhos de rappers corumbaenses com tudo o que tem direito: roteiro, locações, edição e até a obra de Manoel de Barros para os mais conservadores que discursam que o “som da rua, da quebrada” não tem nada a ver com poesia.

Rap de Fundo de Quintal” tem a missão precursora de quebrar o preconceito contra o gênero musical que ganhou as ruas de Corumbá não apenas nas periferias, mas formatou eventos que estão fortalecendo, num cenário independente, a disseminação em espaços como o Porto Geral onde há cerca de dois anos acontecem as famosas batalhas de MC’s.

“O preconceito está estampado na cara da pessoa, da forma como ela olha para a gente. Elas julgam pelo o que veem e não sabem quem realmente somos, mas isso não me abala em nada, tento mostrar de uma forma positiva me expressando no rap”, disse Alex Fardino Barrios, conhecido no mundo do rap como “Primo A”.

Fã do estilo desde os 12 anos, ele contou que teve que vencer o preconceito, primeiramente, dentro da própria casa onde o rap era visto como marginal pela irmã e pela mãe. Enquanto luta para alcançar o reconhecimento no meio artístico, ele prova, com o ofício de pedreiro, que rap também é coisa de trabalhador.

“A gente viu no rap uma alternativa, segui para o curso de teatro, comecei a trabalhar, ganhar dinheiro com a arte e, cada vez mais, isso me provou que as coisas erradas não compensam”, afirmou Vinícius Galharte de Oliveira, o rapper “Revolta” ao Diário Corumbaense.

Rap selvagem

A letra diz: “É rap selvagem, escrevi do lado de uma onça” e, ao mesclar a realidade da periferia de uma cidade do interior, da fronteira e localizada num dos maiores santuários ecológicos do mundo, é que surge o DNA do rap corumbaense. “É uma forma de protesto, o rap é isso. Da onde a gente vem é feio, é 'brabo' e é isso que a gente retrata. Estamos tentando mesclar essa realidade com a beleza do Pantanal e a nossa cultura, deixando uma mistura interessante", comentou Vinícius Galharte.

Foi ele quem levou a ideia de fazer um clipe da parceria com o grupo Atentado Suburbano para dentro da Oficina de Cinema realizada no 14º Festival América do Sul Pantanal, ministrada por Marinete Pinheiro e Gabriel Lima.

“O Vini (Revolta) pensou o roteiro porque ele já tem essa cabeça para o cinema, porém contou com a colaboração de todos. Gravamos sozinhos as primeiras cenas, fizemos várias para tentar ângulo perfeito, áudio, luz. Na edição também, foi algo complicado porque unir o áudio com a cena precisa estar bem sincronizado, foi uma experiência válida”, disse Gabrielle Petrelli de Souza, que atuou como produtora audiovisual do clipe já em sua primeira experiência no mundo do cinema.

Roteiro, locação, filmagens e edição foi feito por alunos com a supervisão de ministrantes do curso

A intertextualidade com a obra de Manoel de Barros vem justamente pela forma como nasceu a música “Rap de Fundo de Quintal”. Bem ali no espaço mais sagrado para o poeta sul-mato-grossense que no livro “Memórias Inventadas - As infâncias” diz: “Meu quintal é maior do que o mundo”.

“Foi no quintal da casa do Wand MC (Atentado Suburbano), lá no bairro Jardim dos Estados, que surgiram os primeiros versos no dia 31 de dezembro de 2017, daí no dia seguinte, unimos os versos NG e Primo A, e saiu a composição em cima das batidas”, contou Vinícius “Revolta”.

Mais produções

O clip de “Rap de Fundo de Quintal” foi aprovado por uma referência nacional do estilo. O paulistano Criolo que se apresentou no Festival América do Sul chegou a exibir a produção antes de seu show na praça Generoso Ponce e foi um grande estímulo para os artistas e produtores que afirmam que não irão parar por aqui.

“Criolo mostrou que o rap não é coisa de bandido, quebrou esse tabu, ele pregou a paz, o amor, isso abre os olhos das pessoas com esse discurso preconceituoso. Querendo ou não por ser interior, a gente ainda sofre preconceito”, disse Vinícius Revolta.

Clipe que fala da realidade urbana de Corumbá dialogou com a poesia de Manoel de Barros

O Atentado Suburbano conta, hoje, com um estúdio de gravação montado com as economias dos integrantes onde estão produzindo novos sons e letras, já Vinícius, que completou três participações em oficinas de audiovisual está viabilizando a aquisição de uma máquina filmadora para seguir em novos roteiros e clipes.

“Temos outras músicas já feitas e queremos fazer outros clipes com essa mesma pegada do cinema, incluindo uma história dentro da música. A gente está percebendo  que está crescendo cada vez mais o movimento e isso nos deixa feliz porque lutamos por coisas que todos também lutam, a juventude quer se sentir representada”, declarou Vinícius.

“Depois que a gente se reuniu, o rap evoluiu porque cada um tem um conhecimento a mais numa coisa e nisso vamos fortalecendo o movimento”, avaliou Primo A.

Para saber mais sobre os artistas, veja as páginas no Facebook: (https://www.facebook.com/Atentado-Suburbano-124696074883512/) e (https://www.facebook.com/GALHARTEVINI)

Confira o clipe:

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