Coluna Coisas da Língua, por Rosangela Villa (*) em 10 de Maio de 2026

É raro alguém que nunca teve dúvida sobre o uso correto das expressões por que, porque, por quê e porquê. Se não for o seu caso, meus parabéns!! Mas, no âmbito da ortografia, a palavrinha porque tem provocado hesitação em muita gente. Isso se deve ao fato desse vocábulo ser escrito de várias formas, dependendo da ideia que a pessoa quer representar.
Assim, surge dúvida de quando escrever por que, porque junto, por quê separado e com acento, porquê junto e com acento. Esse é um assunto que merece a nossa atenção. No português, o uso correto do por que separado ocorre nas orações interrogativas diretas ou indiretas, em que se combinam a preposição por + o pronome interrogativo ou indefinido que.
Nesse caso, a expressão possui o significado de por qual razão ou por qual motivo, como nas frases: por que em Corumbá faz tanto calor? Não sei por que Corumbá é tão quente. Utiliza-se também por que, separado e sem acento, no caso da junção da preposição por + pronome relativo que com o significado de pelo qual, pela qual, e plurais correspondentes, como em: sei bem por que motivo voltei ao Brasil.
Por outro lado, a palavra porque justaposta é conjunção explicativa ou causal, e poderá substituir as expressões pois, uma vez que, para que, por exemplo: vou-me embora mais cedo porque tenho que estudar para a prova; não faça intriga porque prejudicará a você mesmo.
Nessa esteira, por quê, separado e com acento, deve ser usado quando vier antes de ponto de interrogação, de exclamação, de ponto final ou de reticências, com o significado de por qual motivo, por qual razão, como em: você não gosta de frio por quê? Vamos de carro, caminhar três quilômetros por quê? E, nesse caso, ainda, acentua-se o por quê, pois devido à posição na frase, sendo o último elemento, o monossílabo que passa a ser tônico.
E, finalmente, o porquê justaposto, e com acento, é substantivo e tem o significado de motivo ou razão, sendo antecedido de pronome, artigo, adjetivo ou numeral, como nas frases: com esse porquê, até eu mudaria de opinião; diga-me um porquê para não fazer o que é certo; desconheço o porquê daquele comportamento; existem muitos porquês para justificar essa atitude.
Pois bem, vimos que em relação a esse conteúdo a ideia comanda a forma de escrever. Coisas da língua! Até a próxima.
(*) Rosangela Villa da Silva é Profa. Titular Aposentada da UFMS, Mestre e Dra. em Linguística pela UNESP, com Pós-Doutorado em Sociolinguística pela Universidade de Coimbra/Portugal.