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Familiares de rapaz com deficiência mental grave, negam omissão e pedem ajuda para tratamento

Ricardo Albertoni em 05 de Julho de 2018

Anderson Gallo/Diário Corumbaense

Família diz fazer todo o esforço para que Sony (de camisa listrada) fique em casa, mas, muitas vezes, nem os calmantes são suficientes

Após receberem uma enxurrada de críticas em grupos de rede social, familiares de Sony Francisco de Souza procuraram o Diário Corumbaense para relatar o drama vivido por eles. De acordo com documentos apresentados pela mãe de Sony, Elizabeth Batista (52) e os irmãos Marcos Paulo de Souza (28) e Liliane Gonçalves de Souza (31), o rapaz de 28 anos tem deficiência mental grave com alteração de comportamento e epilepsia. A mãe contou que uma meningite contraída nos primeiros meses de vida causou as sequelas mentais.

Os familiares afirmam que tomarão medidas legais contra responsáveis por comentários caluniosos e difamatórios dirigidos contra eles. Segundo Marcos, a maioria acusa a família de ser negligente em relação aos cuidados com Sony, deixando-o perambular pelas ruas da cidade. “Não somos omissos, o que as pessoas têm feito agora é difamar, dizendo que a gente não faz nada, tem alguns que defendem, quem conhece sabe o que a gente faz, mas muitos não sabem o que estão falando”, afirmou Marcos que está cursando faculdade de Assistência Social para ajudar nos cuidados com o irmão.

Sony mora com a mãe e o padrasto em uma residência no bairro Cristo Redentor. De acordo com a irmã dele, a família faz todo o esforço possível para que ele permaneça em casa, mas, em muitas ocasiões, nem os calmantes são suficientes. “As pessoas falam que a gente tem que prender em casa, como? Se a gente amarrar a perna dele na cama estaremos errados. Na casa dela – Elizabeth - não tem eletrodomésticos porque ele quebra.  Se você não deixar ele sair, por exemplo, ele se transforma. Ele foi esfaqueado no começo do ano e mesmo operado, deslocou o braço da minha mãe porque não queria entrar no banheiro para tomar banho e acabou empurrando-a. Além da medicação para controlar as convulsões, ele toma calmantes, mas ultimamente nem os calmantes têm adiantado, ele toma os remédios e sai com sono na rua e acaba dormindo”, contou Liliane.

A família teme pela vida de Sony nas ruas. Em janeiro deste ano, ele foi esfaqueado e encaminhado em estado “gravíssimo” para o CTI - Centro de Tratamento Intensivo da Santa Casa de Corumbá. Ficou três dias na ala onde permanecem os pacientes mais graves e dois dias de repouso. Em casa, a “necessidade” de ir para a rua fez com que ele pulasse a janela do apartamento em que morava com a mãe ocasionando abertura de pontos da cirurgia.

Anderson Gallo/Diário Corumbaense

Familiares de Sony procuraram o Diário Corumbaense para relatar o drama vivido por eles

Um dos motivos da preocupação dos familiares são os comentários de que nas ruas Sony seria agressivo e relatos que ele estaria cometendo atos obscenos. A família alega que Sony é uma pessoa influenciável, "uma criança no corpo de um adulto", segundo a mãe. Eles afirmam que como ele não tem discernimento do certo e errado, algumas pessoas se aproveitam dessa condição para induzi-lo a certas atitudes.

Sem saber o que fazer, a família pede socorro e afirma que qualquer ajuda no tratamento de Sony é bem-vinda. Como não existem meios de manter o rapaz em casa, a mãe apela para que o Poder Público os auxilie na busca por uma solução para o caso dele. Segundo a mãe, até lá, o que resta é a oração.

“Ele não é psicopata, ele não tem esse tipo de transtorno. As pessoas falam que ele já passou a mão, já levantou a saia, isso acontece porque algumas pessoas pedem pra ele fazer, ele é influenciável. Ele chega em casa machucado, queimado de cigarro, está com dentes quebrados. É horrível saber que estão machucando, maltratando um filho que você cuidou com tanto carinho e você não poder fazer nada”, desabafou dona Elizabeth.

Familiares buscam alternativas, como a internação involuntária

Para a família, a única forma de preservar sua integridade física é a internação. Documento datado de março de 2015 confirma que Sony é atendido pelo CAPSII desde 2012 e que a continuidade do tratamento especializado e multidisciplinar é necessária. Entretanto, o documento ressalta que é preciso a aceitação do tratamento por parte do usuário, o que não é o caso de Sony.

Anderson Gallo/Diário Corumbaense

Elaine Zani, coordenadora do CAPS II José Fragelli (à esquerda) e coordenadora do Núcleo de Atenção Psicossocial, Marci Eliane (à direita) explicaram o que o Município pode fazer

A família alega que Sony não tem condições de tomar decisões e para a internação involuntária se baseiam em receituário assinado por psiquiatra da rede pública em 2014 que afirma que o paciente é “totalmente incapaz para as responsabilidades da vida civil” e que necessita de tratamento e de supervisão o tempo todo desde as necessidades mais básicas da vida diária como ingestão de medicação.

Mas, a coordenadora do CAPS II José Fragelli, enfermeira Elaine Zani, disse que não funciona dessa forma. A profissional da área de saúde do Município explicou que a determinação sobre a não internação por tempo indeterminado, existe após mudança na política de tratamento desses pacientes, que culminou com o fechamento dos leitos psiquiátricos e criação dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).

“Antigamente essas internações longas aconteciam, mas houve uma mudança na política no Ministério da Saúde. A internação acontece para estabilizar o quadro agudo e a pessoa  volta para a família e para a sociedade. Trabalhamos de acordo com a Legislação do Ministério da Saúde”, afirmou Elaine.

A coordenadora destacou que o caso de Sony não é especificamente de atendimento em CAPS. “O Sony tem um problema neurológico de nascença muito grave. Os usuários de CAPS são pessoas que possuem transtorno mental, por exemplo: esquizofrenia, transtorno bipolar, depressão com tentativa de suicídio, transtorno de personalidade, transtorno obsessivo-compulsivo e outros. O problema do Sony é neurológico, mas nós o acolhemos e tratamos desde então porque não iríamos deixá-lo sem atendimento e nem a dona Elizabeth sem uma resposta”, disse.

Uma possível evolução para o caso pode ser uma nova avaliação de Sony feita por um especialista. Elaine explicou que o Município não contava com neurologista e que só recentemente um médico passou a atender no sistema público. A avaliação deste profissional vai decidir sobre internação ou não de Sony ou possível mudança de medicação.

“Vamos encaminhá-lo para o especialista, que antes não tinha na cidade. Se ele ver a necessidade, ele pede a internação. O hospital de Corumbá conta com uma ala de leitos de saúde mental”, informou.

Se houver a necessidade de internação involuntária, a coordenadora do Núcleo de Atenção Psicossocial, Marci Eliane, destacou que o procedimento é acompanhado pelo Ministério Público, já que de acordo com a Lei da Reforma Psiquiátrica, "ninguém pode ficar indeterminadamente internado, conforme trecho da lei: [...Art. 8º da Lei 10.216 de 2001, a internação voluntária ou involuntária somente será autorizada por médico devidamente registrado no Conselho Regional de Medicina - CRM do Estado onde se localize o estabelecimento. A internação psiquiátrica involuntária deverá, no prazo de setenta e duas horas, ser comunicada ao Ministério Público Estadual...]"

Sobre os questionamentos feitos em redes sociais em relação aos cuidados por parte da família, Marci lembrou que nem sempre é possível manter a pessoa com deficiência "presa" em casa. “A gente entende a dificuldade enfrentada pela  família. As pessoas em geral não têm paciência com quem tem deficiência ou transtorno mental circulando pela rua, não tem esse entendimento de que mesmo a família cuidando e fazendo todo o possível, não há forma de 'prendê-lo 24 horas por dia', finalizou.

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