Campo Grande News em 03 de Agosto de 2026
Paulo Francis/Campo Grande News

Neno Razuk, de 48 anos, após chegar ao Centro de Triagem Anísio Lima, no Complexo Penal de Campo Grande, na tarde desta segunda-feira
O ex-parlamentar de 48 anos chegou ao CT cumprimentando com apertos de mão os servidores da carceragem e se despediu da escolta do Gaeco (Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado) com “joinha”.
A transferência foi feita sob escolta do Gaeco em um SUV Chevrolet Blazer. Já na Capital, Neno foi levado diretamente para o Centro de Triagem, uma vez que já havia passado pelo exame de corpo de delito no Imol (Instituto de Medicina e Odontologia Legal) na cidade a 426 km de Campo Grande.
Pouco antes das 16h, o advogado Ricardo Souza Pereira esteve no Complexo Penal do Jardim Noroeste para tentar conversar com o cliente, mas ele ainda não havia chegado. Segundo ele, a defesa precisava verificar a situação do ex-deputado antes de definir as próximas medidas judiciais.
O ex-deputado estava há um mês na Bolívia e ingressou no país vizinho dias antes de a Justiça de Mato Grosso do Sul decretar sua prisão preventiva na Operação Successione. A informação consta na resolução da Direção Geral de Migração boliviana que determinou sua saída obrigatória e posterior entrega à PF (Polícia Federal) na fronteira com Corumbá.
Os documentos também mostram que ele apresentou um documento considerado "presumidamente falso" pelas autoridades bolivianas e recebeu proibição de retornar ao país vizinho.
Até o fim desta manhã, a informação era de que Neno foi preso por permanência irregular na Bolívia e entregue à Polícia Federal. Os documentos obtidos agora detalham a cronologia da permanência dele no país e os fundamentos utilizados pelas autoridades bolivianas para determinar sua expulsão.
Segundo a resolução administrativa, Neno entrou na Bolívia em 1º de julho de 2026, pelo posto migratório de San Matías, cidade localizada no departamento de Santa Cruz, bem perto da fronteira com o Brasil, próximo a Cáceres, no Mato Grosso.
Quando foi abordado, neste domingo, dia 2 de agosto, ele foi encaminhado ao posto de controle migratório de Puerto Suárez, na fronteira com Corumbá, em Mato Grosso do Sul, após pedido de cooperação entre as autoridades bolivianas e brasileiras. Durante a análise, a Migração consultou o sistema da Interpol (Polícia Internacional) e verificou que não havia a inclusão do ex-deputado foragido na Difusão Vermelha. Em contrapartida, o sistema apontava um mandado de prisão expedido pela Justiça brasileira, válido até julho de 2046, por investigação relacionada à organização criminosa.
Outro ponto citado no auto é a apresentação de uma identidade classificada pelas autoridades bolivianas como “presumidamente falsa”. A notificação de saída obrigatória registra que a medida foi aplicada porque Neno “não conta com permanência legal na República da Bolívia” e pela “apresentação de documento presumidamente falso segundo informe de verificação no sistema I-24/7 emitido pela Interpol”, embora o relatório não cite exatamente qual documento não seria verdadeiro.
Proibição de retorno
A Direção Geral de Migração concluiu que Neno se enquadrava nas hipóteses de saída obrigatória previstas na Lei nº 370 e determinou a retirada imediata dele do território boliviano. A decisão também impôs proibição de reingresso ao país, ressalvadas apenas as hipóteses excepcionais previstas na legislação boliviana, como reunificação familiar ou razões humanitárias, mediante nova análise administrativa.
Neno foi entregue à Polícia Federal na fronteira entre Puerto Suárez e Corumbá, por volta das 22h30 de domingo (2). O cumprimento formal do mandado de prisão brasileiro ocorreu na madrugada de segunda-feira (3), às 4h50. Pela manhã, ele passou por exame de corpo de delito.
O preso passaria por audiência de custódia às 15h, em Corumbá, mas o Gaeco (Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado) decidiu antecipar a escolta até a Capital. O encontro com o juiz para análise da prisão não aconteceu.
Defesa nega fuga
Em nota divulgada nesta segunda-feira, a defesa afirmou que Neno entrou na Bolívia em 1º de julho, antes da expedição do mandado de prisão, e que soube da ordem judicial por meio da imprensa.
Os advogados alegam que ele não se apresentou imediatamente porque ainda aguardava o julgamento de recursos na Justiça Eleitoral contra a perda do mandato de deputado estadual. Conforme a versão da defesa, uma eventual decisão favorável poderia alterar a situação processual que levou à decretação da prisão.
A prisão preventiva foi decretada pelo juiz José Henrique Káster Franco, da 4ª Vara Criminal de Campo Grande, após Neno perder o mandato na Assembleia Legislativa. Com a saída do cargo, ele também perdeu o foro por prerrogativa de função.
Na decisão, o magistrado considerou que a liberdade do ex-deputado representaria risco à ordem pública. O Gaeco aponta Neno como uma das lideranças de uma organização criminosa que continuaria em atividade.
Em outro processo ligado à operação, ele foi condenado em primeira instância a 15 anos, sete meses e 15 dias de prisão por organização criminosa armada, roubo majorado e exploração do jogo do bicho. Ele recorria da sentença em liberdade.A atual prisão preventiva foi determinada em uma ação penal diferente daquela que resultou na condenação. O ex-deputado nega envolvimento nos crimes.
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