Folha de São Paulo em 26 de Julho de 2026
Karime Xavier/Folhapress

A dona de casa Izede Zago, depois de criar duas filhas e três netos, ainda se dedica a fazer as marmitas do neto de 21 anos
Os três já são adultos, mas continuam presentes em seu cotidiano. Theo dorme no apartamento da avó quando precisa ir cedo à empresa e leva as marmitas preparadas por ela. Ele não precisa gastar com comida fora de casa nem com os alimentos para a produção e faz a alegria da avó. "Não tem satisfação maior. É vó 24 horas", afirma Izede.
Na casa de Irani Calegari Silva, 70, e José Alberto Pereira da Silva, 76, a neta Rebecca Baldon, 20, é presença mais do que especial. Os três vão juntos à academia e costumam fazer viagens, todas custeadas pelos avós. Eles também são os responsáveis por pagar a faculdade de arquitetura de Rebecca. "Dissemos: 'Se você quiser fazer, pode fazer que a gente assume'", conta Irani.
Os casos de Izede e Irani mostram uma realidade cada vez mais comum no Brasil. Com a longevidade acelerada do brasileiro, as alterações no mercado de trabalho e as mudanças nas dinâmicas das famílias, avós têm se dedicado ainda mais aos cuidados dos netos, assumindo também gastos financeiros.
Segundo o estudo Tsunami Prateado, da data8, empresa de pesquisa e tendências sobre comportamento e consumo do público 50+, a proporção de brasileiros acima dos 50 anos que cuida de alguém saltou de 37% para 57% entre 2018 e 2026.
Do total, 4 em cada 10 apoiam financeiramente os filhos (36%) —muitas vezes para a criação dos netos— e 2 em cada 10 (21%) dizem ter como maior medo ver filhos ou netos mal sucedidos na profissão.
O Tsunami Prateado estuda a longevidade no Brasil e os novos comportamentos dos brasileiros desde 2018. Na edição de 2026, ouviu 3.298 brasileiros em todo o país entre os dias 8 e 12 de fevereiro e realizou pesquisa qualitativa com 42 famílias no Sudeste. A margem de erro é de 1,7 ponto percentual.
O levantamento mostra justamente uma mudança na dinâmica familiar, com os mais velhos sendo os cuidadores - inclusive financeiramente - por mais tempo, em vez de passarem a ser cuidados.
"Aqui no Brasil a gente tem famílias muito aglutinadas, especialmente nas classes mais baixas, e existe um grande desafio que, com esse envelhecimento populacional, as famílias vão ficando cada vez mais encolhidas", diz Lívia Hollerbach, coordenadora da pesquisa.
O psicólogo Alisson Guiotto, mestre em ciências do envelhecimento e professor da Universidade Cruzeiro do Sul, afirma que muitos avós hoje assumem funções permanentes no cuidado dos netos e até no orçamento doméstico por conta das mudanças na dinâmica social.
"Isso ocorre por diversos fatores, como o aumento do custo de vida, as longas jornadas de trabalho dos pais, o crescimento das famílias monoparentais - com apenas uma mãe ou um pai -, as separações conjugais e as dificuldades econômicas", afirma.
Quando o cuidado se estende para além do casal, ele continua recaindo principalmente sobre outras mulheres: 31% contam com a ajuda da própria mãe e 10% da sogra. Em comparação, avôs, sogros, irmãos e outros familiares aparecem com participação muito menor na rotina. Além disso, 17% das entrevistadas afirmam não contar com nenhum tipo de apoio, enfrentando sozinhas a maior parte dos cuidados.
Estudo das Noz Inteligência para o Dia dos Avós, celebrado neste domingo (26), mostra que quando o cuidado com filhos se estende para além do casal, recai sobre as avós: 31% contam com ajuda da própria mãe e 10% da sogra. O levantamento - feito em parceria com o CineMaterna, que organiza sessões de cinema para mães - ouviu 1.138 mulheres com filhos de até dois anos em todo o país.
Mirian Rodrigues, presidente do CineMaterna, ressalta a convivência entre gerações como um fator positivo. "As avós são, muitas vezes, um porto seguro para as mães. Celebrar o Dia dos Avós é reconhecer esse trabalho de cuidado, que tantas vezes acontece de forma silenciosa e pouco valorizada."
A ciência mostra que há impactos positivos nessa convivência. A participação dos avós na vida dos netos pode trazer benefícios para a saúde física e emocional dos mais velhos, com reflexos positivos no bem-estar psicológico, na memória, na função pulmonar e na percepção geral de qualidade de vida.
Izede orgulha-se de ser um apoio para Theo. "Quando o Theo nasceu, a mãe dele queria colocar na escolinha, mas eu não deixei. A vó cuida. Agora, o Theo está trabalhando, fazendo as coisinhas dele, terminando a faculdade. É uma fase que já tem a personalidade dele, não é mais aquele bebê, mas a vó está sempre aqui", diz.
No Diário Corumbaense, os comentários feitos são moderados. Observe as seguintes regras antes de expressar sua opinião:
Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião deste site. O Diário Corumbaense se reserva o direito de, a qualquer tempo, e a seu exclusivo critério, retirar qualquer comentário que possa ser considerado contrário às regras definidas acima.