Campo Grande News em 04 de Julho de 2026
Maya Severino

Equipes movendo motor do avião
Segundo o perito criminal Domingos Sábio Rivas, da Polícia Científica de Mato Grosso do Sul, a análise preliminar do cenário encontrado no local é compatível com uma possível desorientação espacial da tripulação, hipótese que ainda precisa ser confirmada por exames técnicos.
"Todo cenário que a gente tinha ontem seria compatível com uma desorientação espacial. Entretanto, a gente não pode afirmar isso sem averiguar a parte mecânica da aeronave, os equipamentos, os aviônicos e verificar se houve alguma pane", explicou.
De acordo com o perito, a dinâmica observada pelos investigadores indica uma queda praticamente vertical e em alta velocidade.
"Aparentemente, a parte direita da aeronave tocou primeiro o solo. O campo onde ficaram os destroços é curto, cerca de 20 metros, então é uma queda praticamente vertical, com alta velocidade", afirmou.
Os motores, hélices e demais componentes considerados relevantes para a investigação foram retirados da área do acidente e serão lacrados antes de serem encaminhados para uma oficina homologada pela Anac (Agência Nacional de Aviação Civil).
Segundo Domingos, os equipamentos serão desmontados e analisados na presença dos investigadores do Cenipa para verificar se houve alguma falha mecânica que possa ter contribuído para o acidente.
"Vamos proceder à abertura desses motores e verificar se existe algum eventual problema interno", disse.
As peças estavam espalhadas em uma área de mata próxima ao Aeroporto Santa Maria. Durante a manhã, investigadores do Cenipa, peritos da Polícia Científica, bombeiros e funcionários do aeroporto participaram dos trabalhos de remoção e preservação dos destroços.
A aeronave de matrícula PT-WYQ decolou por volta das 6h20 com destino à região pantaneira. Pouco tempo depois, caiu em uma área de mata ao lado da pista. Os destroços foram localizados por um funcionário do hangar que participava das buscas a pé desde as primeiras horas da manhã.
Neblina marcou a manhã do acidente
Uma das informações que deverá integrar a investigação é o registro das condições meteorológicas em Campo Grande no momento da decolagem.
A Capital amanheceu sob efeito de uma frente fria, com nevoeiro, garoa e sensação térmica de 7,6°C. A baixa visibilidade já havia afetado a operação do voo. Conforme apurado pela reportagem, a decolagem estava prevista inicialmente para as 5h, mas foi adiada em razão das condições climáticas.
Também chamou atenção de profissionais da aviação o fato de o Aeroporto Santa Maria aparecer classificado para operações VFR (Visual Flight Rules), ou regras de voo visual, nas publicações aeronáuticas oficiais do Decea (Departamento de Controle do Espaço Aéreo).
Nesse tipo de operação, o piloto precisa manter referências visuais do terreno e do horizonte durante o voo. Já operações IFR (Instrument Flight Rules), realizadas com auxílio de instrumentos e procedimentos específicos, são utilizadas em condições de baixa visibilidade.
Pilotos ouvidos pela reportagem ressaltam, no entanto, que ainda não é possível estabelecer qualquer relação entre as condições da manhã e o acidente. A avaliação caberá aos investigadores do Cenipa.
Aeronave estava regular
Conforme consulta ao RAB (Registro Aeronáutico Brasileiro), da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), a aeronave era um modelo Neiva EMB-810D Seneca, fabricado em 1983.
O avião estava com situação regular, possuía Certificado de Verificação de Aeronavegabilidade válido até junho de 2027 e era operado pela empresa Amapil Táxi Aéreo.
O registro também indica autorização para operações IFR, modalidade em que a navegação pode ser feita com apoio dos instrumentos da aeronave.
Quem eram as vítimas
O piloto Henrique Martin e a pesquisadora alemã Lydia Theresia Möcklinghoff morreram no local da queda.
Henrique era conhecido no meio da aviação sul-mato-grossense e trabalhava havia cerca de um mês na Amapil Táxi Aéreo. Antes, atuou como instrutor de voo. Casado e pai de uma menina, ele compartilhava nas redes sociais registros da rotina entre os hangares e momentos ao lado da família.
Já Lydia, de 45 anos, era uma pesquisadora reconhecida internacionalmente pelos estudos desenvolvidos no Pantanal. Zoóloga, ecóloga tropical e doutoranda na Alemanha, ela dedicou anos ao monitoramento e à conservação de mamíferos silvestres da região, especialmente tamanduás. Parceira de longa data do Instituto Tamanduá, era presença frequente em expedições científicas no Estado e seguia para mais uma etapa de pesquisas quando ocorreu o acidente.
A morte da pesquisadora provocou comoção entre cientistas, ambientalistas e profissionais que atuam na conservação da fauna pantaneira, enquanto familiares, amigos e colegas de Henrique prestaram homenagens ao piloto.
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