Leonardo Cabral em 28 de Maio de 2026
Reprodução/Ferroviária Oriental

Volta do transporte de passageiros acontece após três meses do retorno do trem turístico
A viagem inaugural do trem, operado pela empresa Ferroviária Oriental contará com cerimônia na estação ferroviária de Santa Cruz de la Sierra, às 10h, com partida prevista para as 13h em direção a Puerto Quijarro.
O trem será composto por uma locomotiva, dois vagões da classe Pullman, com passagens no valor de 90 bolivianos (cerca de R$ 46), além de um vagão da classe econômica, ao custo de 60 bolivianos (aproximadamente R$ 30,76). Também haverá um vagão destinado ao transporte de bagagens.
O itinerário inclui paradas em diversas cidades da região boliviana, como Cotoca, Pailas, Pailón, Cañada, Três Cruzes, Pozo del Tigre, Quimome, Piococa, San José, Taperas, Ipias, Chochis, Roboré, Águas Calientes, El Carmen Rivero Torres, Yacuses e Puerto Suárez, até chegar a Puerto Quijarro.
Com capacidade para 189 passageiros, o trem contará com serviços a bordo, incluindo ar-condicionado, assentos reclináveis, televisão, música ambiente, luzes de leitura e banheiros químicos, além das paisagens que fazem do trajeto uma experiência marcante para os viajantes.
A retomada do trem de passageiros ocorre após mobilizações de comitês cívicos de cidades da região da Chiquitania, que chegaram a bloquear a ferrovia reivindicando o retorno do transporte ferroviário de passageiros. Em fevereiro deste ano, os itinerários começaram a ser retomados por meio do Ferrobús.
Reprodução/Ferroviária Oriental

A Ferroviária Oriental anunciou oficialmente o retorno do trem de passageiros para esta sexta-feira
A reativação do transporte de passageiros ferroviário é considerada essencial para impulsionar a economia das cidades ao longo da ferrovia, fortalecer o turismo e oferecer uma alternativa mais acessível à população, principalmente diante do aumento dos custos do transporte rodoviário.
O transporte de passageiros havia sido suspenso em 2020, durante a pandemia de covid-19, enquanto o transporte de cargas continuou operando normalmente. Para a retomada, os vagões passaram por reformas e receberam melhorias nos serviços oferecidos aos passageiros.
A distância entre Santa Cruz e Puerto Quijarro é de mais de 600 km de trilhos. A viagem dura entre 12h e 17h.
Viagens que marcaram gerações
O retorno do trem também reacendeu memórias afetivas de moradores da fronteira.
“Além de apreciarmos a paisagem, o retorno do trem permite reunir novamente as famílias dentro dos vagões. Lembro de muitos casamentos em Corumbá, quando os familiares chegavam trazendo flores, convidados e muita alegria. Era uma verdadeira festa”, recordou Fanny Lourdes Salcedo Caldas Galache, de 62 anos, ao ressaltar que a retomada do transporte ferroviário beneficia diretamente comerciantes, moradores e turistas de toda a região.
Foto cedida ao Diário Corumbaense

Luciana Espinoza e a irmã, no terminal ferroviário de Santa Cruz, em uma das primeiras viagens
Segundo ela, em 1993, o marido, conhecido como Dadinha, viajou de trem até a Bolívia para jogar futebol em um time de Puerto Suárez. Apesar das dificuldades da primeira viagem, feita em um vagão de carga, ele acabou se destacando no campeonato e recebeu uma proposta para morar em Santa Cruz.
“Quando ele voltou, veio apenas para me buscar. Na época, nossa filha ainda era bebê e fomos viver uma das maiores experiências das nossas vidas”, relembrou ao Diário Corumbaense.
Luciana contou que, ao longo dos anos, as viagens de trem se tornaram tradição familiar. Em alguns períodos, a família conseguia viajar de avião, mas em outros momentos o trem era a principal alternativa para manter os encontros familiares em datas comemorativas.
“Vieram depois nossas outras filhas e as viagens passaram a envolver toda a família. Temos lembranças lindas dessa época. Às vezes o trem quebrava no meio do caminho e era preciso seguir de carro. Em outras viagens, tudo era pura alegria. Foram anos vivendo assim”, afirmou.
Foto cedida ao Diário Corumbaense

Pai de Luciana, em uma das primeiras visitas a Santa Cruz de la Sierra
Luciana também ressaltou a importância de preservar o transporte ferroviário. “Esse trem de passageiros marcou uma geração inteira. Era conhecido como ‘trem da morte’, mas, para nós, de morte nunca teve nada. Pelo contrário, foi cenário de encontros, risadas, união familiar e memórias inesquecíveis”, declarou.
O apelido “trem da morte”, popularizado em meados do século XX, surgiu durante períodos de epidemias na região boliviana de Santa Cruz de la Sierra, quando os vagões chegaram a ser utilizados para transportar doentes e vítimas de febre amarela e malária.
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