Coluna Coisas da Língua, por Rosangela Villa (*) em 24 de Maio de 2026

As fronteiras representam objeto de interesse de vários campos do conhecimento, dentre eles, o da língua e sociedade, que são noções estreitamente relacionadas, considerando que, quando se fala em língua, pensa-se também em sociedade e sua cultura, além de conectar outros aspectos sociais e geopolíticos. Esta fronteira do Brasil representa um espaço importante de conexão com a cultura dos bolivianos.
Nesta esteira, adotei o conceito de bilinguismo funcional para explicar as interações diárias promissoras entre os fronteiriços realizadas em português e espanhol. O bilinguismo funcional é a capacidade de usar dois idiomas para comunicar-se efetivamente em situações cotidianas, sociais ou profissionais, mesmo que a pessoa não tenha um domínio perfeito das duas línguas. Sendo o foco a comunicação prática e a resolução de problemas, em vez da gramática.
E isso é visto no dia a dia desta fronteira, sujeitos interagindo em várias situações com imperfeições gramaticais, mas com resultados práticos positivos. Nesse contexto, a segunda língua é usada com a finalidade de realizar algo em diferentes espaços, como feiras, restaurantes, comércio, lazer; tornando comum entre brasileiros e bolivianos a troca do idioma português para espanhol ou vice-versa, numa mesma conversação, para ajustes na semântica e melhor eficácia na comunicação.
Nesse cenário, esta localidade interessa muito aos estudos de contato das línguas, e das atitudes de brasileiros diante do espanhol, e de bolivianos diante do português, e pela constatação de que as práticas de linguagem resultam basicamente da relação comercial entre os fronteiriços.
No entanto, é possível entender, a partir das hibridações étnicas, culturais e sociais existentes, a singularidade presente na relação cotidiana desses povos e o sentido próprio que as línguas apresentam para esses sujeitos: a significação e a reconstrução de sua identidade em espaços interculturais por meio dos diálogos produzidos, revelando que as situações de contato são divergentes, mas, ao mesmo tempo, semelhantes, pela condição de igualdade que as contextualizam.
Em outras palavras, mostram as especificidades do espaço, considerando que há um processo natural, responsável por gerar uma identidade própria do fronteiriço, em que as tradições culturais e manifestações religiosas vão se misturando e sendo vivenciadas pelas comunidades fronteiriças dos dois lados da fronteira. Nesse contexto sociolinguístico, podemos dizer que somos todos bilíngues funcionais nesta territorialidade. Até a próxima.
(*) Rosangela Villa da Silva é Profa. Titular Aposentada da UFMS, Mestre e Dra. em Linguística pela UNESP, com Pós-Doutorado em Sociolinguística pela Universidade de Coimbra/Portugal.