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I-Juca Pirama, de Gonçalves Dias

Coluna Coisas da Língua, por Rosangela Villa (*) em 19 de Abril de 2026

Caros leitores

O poema I-Juca Pirama, de Gonçalves Dias, publicado em 1851, é dividido em dez cantos. A obra, um ícone do indianismo no Romantismo brasileiro, possui 484 versos e narra a história de um índio tupi que é capturado pela tribo rival, os Timbiras.

Parte do Canto IV

Meu canto de morte,

Guerreiros, ouvi:

Sou filho das selvas,

Nas selvas cresci;

Guerreiros, descendo

Da tribo tupi.


Da tribo pujante,

Que agora anda errante

Por fado inconstante,

Guerreiros, nasci;

Sou bravo, sou forte,

Sou filho do Norte;

Meu canto de morte,

Guerreiros, ouvi.


Já vi cruas brigas,

De tribos imigas,

E as duras fadigas

Da guerra provei;

Nas ondas mendaces

Senti pelas faces

Os silvos fugaces

Dos ventos que amei.


Andei longes terras

Lidei cruas guerras,

Vaguei pelas serras

Dos vis Aimoréis;

Vi lutas de bravos,

Vi fortes – escravos!

De estranhos ignavos

Calcados aos pés.


E os campos talados,

E os arcos quebrados,

E os piagas coitados

Já sem maracás;

E os meigos cantores,

Servindo a senhores,

Que vinham traidores,

Com mostras de paz.


Aos golpes do imigo,

Meu último amigo,

Sem lar, sem abrigo

Caiu junto a mi!

Com plácido rosto,

Sereno e composto,

O acerbo desgosto

Comigo sofri.


Meu pai a meu lado

Já cego e quebrado,

De penas ralado,

Firmava-se em mi:

Nós ambos, mesquinhos,

Por ínvios caminhos,

Cobertos d’espinhos

Chegamos aqui!


Coisas da língua, e do Brasil! Até a próxima.

(*) Rosangela Villa da Silva é Profa. Titular Aposentada da UFMS, Mestre e Dra. em Linguística pela UNESP, com Pós-Doutorado em Sociolinguística pela Universidade de Coimbra/Portugal.