Ângela Kempfer - Campo Grande News em 24 de Março de 2026
Fernando Donasci/Ministério do Meio Ambiente

Relatório aponta que essas populações caíram cerca de 81% desde 1970 e inclui a Bacia do Prata–Paraná entre as áreas prioritárias para ação urgente
O diagnóstico faz parte da Avaliação Global de Peixes Migratórios de Água Doce, apresentada durante a COP15 da Convenção sobre a Conservação de Espécies Migratórias, no Brasil. O estudo identifica 325 espécies que precisam de medidas coordenadas entre países para evitar novos colapsos.
Logo na abertura, o relatório é direto ao afirmar que “muitas das grandes migrações de peixes de água doce do mundo estão colapsando rapidamente”. O documento ainda reforça que “as populações de peixes migratórios de água doce caíram cerca de 81% desde 1970”, um dos declínios mais acentuados já registrados entre vertebrados.
A lista de áreas prioritárias reforça que a crise não é localizada. Além da Amazônia, o estudo destaca a Bacia do Prata–Paraná, ao lado de sistemas como Danúbio, Mekong, Nilo e Ganges–Brahmaputra, como regiões que exigem ação coordenada entre países.
Esse recorte aproxima o relatório da realidade sul-mato-grossense. A Bacia do Prata engloba rios como o Paraguai, que atravessa o Pantanal, e o Paraná, que marca a divisa leste de Mato Grosso do Sul. Embora o documento não cite o Estado nominalmente, o enquadramento coloca a região dentro de um sistema considerado crítico em escala global.
A explicação para o colapso é conhecida, mas persistente. O relatório aponta “declínios impulsionados por barragens, fragmentação de habitats, poluição, pesca excessiva e mudanças climáticas”. Esses fatores interrompem rotas migratórias e impedem que os peixes completem ciclos essenciais de reprodução e alimentação.
O estudo também corrige uma lógica que ainda domina políticas ambientais. A proteção dessas espécies depende de “gerir os rios como sistemas conectados”, e não como trechos isolados por fronteiras nacionais.
Essa mudança é considerada central porque mais de 250 rios e lagos do mundo cruzam países, e cerca de 47% da superfície terrestre está inserida em bacias compartilhadas. Sem coordenação entre governos, medidas locais tendem a perder efeito.
Apesar da gravidade, a crise ainda é pouco visível. O relatório aponta que populações de animais de água doce estão diminuindo mais rapidamente do que as de ambientes terrestres e marinhos, mas recebem menos atenção internacional.
Além do impacto ambiental, há consequências econômicas e sociais. Em regiões como a Amazônia, espécies migratórias sustentam a maior parte da pesca e garantem renda e alimento para milhões de pessoas.
Para tentar reverter o cenário, a ONU propõe medidas imediatas, como proteção de corredores migratórios, manutenção do fluxo natural dos rios, criação de planos de ação por bacia, monitoramento conjunto entre países e coordenação da pesca.
COP15
A 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (COP15 da CMS) ocorre em Campo Grande de 23 a 29 de março de 2026. Reúne mais de 130 países para definir estratégias globais de proteção para animais que cruzam fronteiras, destacando o Pantanal.
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