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PF apreende espingardas usadas por seguranças em ataque que matou indígena

Campo Grande News em 17 de Novembro de 2025

Conselho Indigenista Missionário

Cartuchos deflagrados que foram encontrados no local

Duas espingardas calibre 12 usadas por seguranças privados da Fazenda Cachoeira foram apreendidas pelas equipes da PF (Polícia Federal) e do IC (Instituto de Criminalística). As armas seguirão para exames que buscam esclarecer quem atirou durante o ataque à Retomada Pyelito Kuê, em Iguatemi, a 233 quilômetros de Campo Grande. Os peritos também recolheram cápsulas, material biológico e ouviram indígenas que estavam no local.

Com base nesses elementos, dois suspeitos foram identificados. Um deles foi reconhecido por um indígena ferido e levado à DPF (Delegacia de Polícia Federal) de Naviraí para prisão em flagrante.

O ataque deste domingo culminou na morte de Vicente Fernandes, 36 anos, indígena Guarani-Kaiowá, baleado na nuca. Ele vivia há pouco mais de um ano na comunidade e sustentava a família trabalhando na roça. A segunda morte confirmada pela Sejusp (Secretaria Estadual de Justiça e Segurança Pública) é a de Lucas Fernando da Silva, funcionário de uma fazenda da região. Há feridos hospitalizados, segundo autoridades.

A Aty Guasu, principal organização política do povo Guarani-Kaiowá, afirma que mais de 40 pessoas estavam acampadas na área da Fazenda Cachoeira. Dos 12 barracos erguidos, 10 foram incendiados logo após a invasão. Vídeo divulgado pela entidade mostra uma mulher correndo para se proteger enquanto tiros ecoam. Em voz trêmula, ela diz que o grupo pede socorro desde as quatro da manhã.

Histórico de conflitos

A região vive uma longa disputa fundiária. Em junho, a Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) atualizou o grupo responsável por estudar a identificação e delimitação dos territórios Iguatemipeguá II e III, que abrangem quatro municípios do sul do Estado. A retomada ocorria justamente nesse contexto de reivindicação territorial.

Para o MPI (Ministério dos Povos Indígenas), a ação teria sido conduzida por pistoleiros. O governo federal acionou órgãos de segurança, enviou equipes do Demed (Departamento de Mediação e Defesa) e disse acompanhar o caso com atenção. O MPI e a Funai lembraram que, em 3 de novembro, foi criado o GTT (Grupo de Trabalho Técnico), com participação do MDA (Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar) e do MGI (Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos), para debater medidas de mediação em conflitos envolvendo povos indígenas no sul do Estado. As reuniões ocorrem semanalmente.

Segundo o MPI, as retomadas Guarani-Kaiowá se intensificam em resposta ao avanço de agrotóxicos, que estaria causando adoecimento e insegurança hídrica e alimentar. A pasta classificou o assassinato como parte de um cenário de perseguição persistente. A nota oficial encerra com solidariedade à família e à comunidade.

Sejusp no apoio

A Sejusp confirmou as duas mortes e informou que suas equipes atuaram em apoio às forças federais. O suspeito de efetuar os disparos, um indígena também ferido, foi detido pela PM (Polícia Militar) e entregue à PF. A pasta ressalta que a PM não fazia segurança ostensiva na área no momento do ataque. A Polícia Científica acompanha a PF nos exames periciais, incluindo o exame necroscópico.

O secretário de Segurança, Antônio Carlos Videira, disse que o Estado seguirá dando suporte às investigações. O MJSP (Ministério da Justiça e Segurança Pública) informou que a Força Nacional reforçou o patrulhamento na região, numa tentativa de evitar novos confrontos.

Questionada sobre a morte de Lucas Fernando da Silva, confirmada pela Sejusp, a Polícia Federal afirmou, por meio da assessoria de imprensa, que o óbito está registrado, mas ainda passa por investigação para determinar se houve ligação com o confronto. Segundo a corporação, a apuração busca esclarecer se a morte ocorreu no contexto do ataque ou se decorreu de outra circunstância.