Folha de São Paulo em 18 de Agosto de 2025
Martin Bernatti e Rodrigo Urzagasti/AFP

Jorge Quiroga (esq.) e Rodrigo Paz Pereira, candidatos que vão disputar o segundo turno na Bolívia
Vão se enfrentar no segundo turno o senador Rodrigo Paz Pereira e o ex-presidente Jorge "Tuto" Quiroga, ambos da oposição, de acordo com dados preliminares publicados neste domingo (17). Os números totais devem ser conhecidos em até sete dias.
Segundo os analistas da autoridade eleitoral, os dados divulgados por volta das 22h20 (horário de Brasília), mostravam Paz Pereira com 32,08%, Quiroga com 26,94% e Samuel Doria Medina com 19,93%. Na esquerda, Andrónico Rodríguez tinha 8,11% e Eduardo del Castillo, 3,14%. Os votos nulos, defendidos por Evo, somavam 19%.
Paz Pereira é uma surpresa, que não aparecia até então como favorito nas pesquisas —figurando, no máximo, em terceiro lugar. Agora, o político de Tarija (no sul do país) tentará seguir os passos de seu pai, o ex-presidente Jaime Paz Zamora (1989-1993). O candidato é boliviano, mas nascido na Espanha, quando seus pais estavam exilados durante o regime militar.
O favorito das pesquisas, o empresário Samuel Doria Medina, que disputava a Presidência pela quarta vez, ficou em terceiro lugar.
Depois de tomar conhecimento dos resultados preliminares, Doria Medina fez um pronunciamento no qual anunciou que apoiaria Paz Pereira. "Ao longo da campanha, eu disse que, se não chegasse ao segundo turno, apoiaria quem viesse primeiro, se não fosse o MAS. Bem, esse candidato é Rodrigo Paz, e eu mantenho minha palavra", disse.
Fragmentada, a esquerda amarga rara derrota. Sua maior chance de continuar no poder era com Andrónico Rodríguez, presidente do Senado e liderança cocaleira, que foi aliado de Evo mas rompeu com o ex-presidente e disputava de forma independente.
Como nenhum dos dois candidatos alcançou mais da metade dos votos ou 40% com uma vantagem de 10 pontos ante o segundo colocado, os bolivianos vão precisar voltar às urnas no dia 19 de outubro. Esta também é a primeira vez que o país andino terá segundo turno desde a Constituição de 2009.
O fim de ciclo de eleições vencidas pela esquerda na Bolívia reflete a fragilidade do MAS, que chegou ao poder em 2006, com Evo, mas teve de ir ao pleito deste ano perdido em batalhas internas, especialmente entre o ex-presidente e o atual, Luis Arce, ex-ministro de Evo que o sucedeu e desistiu de tentar a reeleição.
Evo foi impedido de concorrer neste ano. Rompido com Arce, a quem acusou de se apoderar do MAS e trabalhar para que ele não pudesse se candidatar novamente, e também afastado de Andrónico, que já foi considerado seu sucessor político, o ex-presidente passou a defender o voto nulo como expressão de protesto.
O principal adversário da esquerda nas eleições deste ano, no entanto, foi a economia. O governo quase esgotou suas reservas em dólares, enquanto as exportações de gás, que tiveram o papel de motor econômico que sustentou a redução da pobreza e a melhora do padrão de vida, caíram nos últimos anos.
A disparada do câmbio resultou em uma inflação recorde (em julho, chegou a cerca de 25% em 12 meses), além de escassez de combustíveis e preços altos de produtos básicos, aumentando o descontentamento popular.
Com os números negativos e a guerra fraticida entre seus principais expoentes, a esquerda abriu espaço para que candidatos de direita que já eram conhecidos dos eleitores tivessem vantagem.
"A Bolívia precisa de estabilidade, precisa de governabilidade, mas precisa acabar com o 'Estado de bloqueio' para que o Estado trabalhe para nós e nós para o Estado, para acabar com a injustiça, a corrupção", disse Paz Pereira.
Ao longo da campanha, ele fez a promessa de "varrer a corrupção". Em seu primeiro discurso após o resultado, ele disse que os bolivianos "não estão pedindo uma mudança de governo, mas uma mudança de sistema político. É o início de uma grande transformação".
Quem ganhar as eleições assumirá o cargo em ~08 de novembro para um mandato de cinco anos. O futuro governo terá de enfrentar outras questões urgentes, como as negociações sobre a exploração do lítio. Além disso, os próximos dias serão importantes para demonstrar a capacidade do novo presidente de formar alianças políticas no Parlamento.
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