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Ex-morador de rua em Corumbá faz tratamento contra drogas e tira lição de “experiência sofrida”

Leonardo Cabral em 31 de Maio de 2019

Quinze anos vivendo como "andarilho" pelo Brasil, dos quais quase dez anos sobrevivendo nas ruas de Corumbá. “Uma experiência sofrida”, afirmou Jhone Gonçalves, de 37 anos, ao se referir a um dos períodos mais difíceis de sua vida.

Nas redes sociais, ao saberem de sua recuperação e, que hoje, ele vive novamente com a família, internautas compartilharam imagens de Jhone, com comparações de antes e depois. Foi uma alegria para muitos ao verem que o ex-morador de rua, mais conhecido como “Rip”, venceu a fase nebulosa de sua vida.

Em entrevista ao Diário Corumbaense, Jhone, que mora no município de Balneário Camboriú, Santa Catarina, disse que esses quase dez anos em Corumbá, foram bastante difíceis e quase foi corroído de vez pelas drogas.

Fotos: Arquivo Pessoal

Jhone antes,quando morava nas ruas e depois, quando resolveu voltar para a família e iniciar tratamento

“Eu trabalhava como caminhoneiro e desde a minha adolescência usava drogas. Abandonei tudo e desde então andei por muitas cidades como Cuiabá, Rondonópolis entre outras até chegar em Campo Grande. O que de fato me chamou a atenção para ir até Corumbá foi que ouvia muitas pessoas dizendo que a droga era barata e de fácil consumo. Isso me chamou a atenção”, lembrou Jhone, que veio para a cidade em 2009, com uma mochila, que continha peças de roupas e documentos apenas.

“Em Campo Grande, eu menti para a assistente social que tinha família aqui e que precisava chegar até eles. Quando recebi a passagem, desembarquei em Corumbá e logo comecei a me virar pelas ruas, cuidando de carros, catando latinhas e no terceiro dia, minha mochila foi roubada”, falou Jhone, que teve de se virar para se manter e “sustentar” o vício.

Nesse tempo em Corumbá, ele contou que fez amizades e teve ajuda de muitas pessoas, destacando as atitudes dos corumbaenses pela forma de tratá-lo e também pela maneira de recebê-lo em alguns ambientes.

“Como em qualquer lugar existem pessoas boas e aquelas que te olham com desprezo pelo modo que você se veste ou vive. Isso não pode acontecer, quem vive na rua não está porque quer, mas sim, é por causa da droga que te corrói de maneira implacável. Mas, tenho certeza que nesses anos em Corumbá, foram muito mais pessoas boas do que ruins que estiveram do meu lado e me entenderam sem mesmo conhecer a minha história”, mencionou o ex-morador de rua. 

Mais do que amigos, companheiros

Durante alguns anos, a rua foi o lar de Jhone e sua companhia foram quatro cachorros que ele adotou e que viviam pra cima e pra baixo com ele. Por onde Jhone andava, lá estavam os amigos fiéis dele: “Boca preta”; “Pititotinho”; “Magricela” e “Guri”. “Eles eram grudados comigo, sempre andávamos juntos. Eu cuidava deles e eles cuidavam de mim. Na madrugada, quando estava dormindo, eles ficavam como 'cães de guarda'. Éramos amigos e eles foram por anos meus companheiros”, disse com voz de tristeza, já que os quatro cachorros acabaram morrendo devido a velhice e algumas doenças.

Entre as pessoas que ajudavam o ex-morador de rua, estava Valéria Curvo, integrante da ACLAA (Associação Corumbaense e Ladarense de Apoio aos Animais). Ela se aproximou de Jhone e ofereceu ajuda.

Foto cedida ao Diário Corumbaense

"Eles cuidavam de mim e eu deles", diz Jhone ao lembrar dos cães que foram seus companheiros em Corumbá

“Via ele sempre na rua, na companhia dos cachorros. Um dia resolvi me aproximar e ofereci ajuda. Perguntei a ele se gostaria de receber ajuda para cuidar dos cães e ele disse que sim. A partir disso, sempre pedia ração ao grupo e repassávamos a ele, para que os cachorros fossem alimentados e ele também recebia comida da gente. Quando os animais ficavam doentes, ele também pedia nossa ajuda. E hoje vê-lo novamente com a família é uma satisfação enorme, pois todos nós merecemos uma segunda chance. Quando vi as postagens, me emocionei e fiquei muito feliz. Espero que ele construa um futuro daqui pra frente, melhor ainda, que ele possa recomeçar”, desejou Valéria. 

A volta pra casa

Nesses quase dez anos nas ruas da cidade, o vício tomou conta de Jhone. E para sustentar isso, ele roubou e furtou. “Fui preso por cinco vezes em Corumbá, por furtos e roubos leves. Às vezes, no mesmo dia era liberado ou passava uma noite detido. Isso acontecia para que eu pudesse sustentar o vicio que já tinha tomado tudo de mim”, justificou Jhone.

Na última vez que foi preso, quando passou sete meses no Presídio Masculino por ter furtado baterias de carros em frente à Polícia Federal, ele diz que percebeu, de fato, que havia chegado ao fundo do poço. 

“Na última vez que fui preso, foi pela Polícia Federal, que acabou me flagrando furtando baterias e passei esse tempo lá (no presídio). Foi o suficiente para pensar e colocar a mão na consciência e ver que realmente tinha tomado o caminho errado em minha vida. Então, resolvi ligar para a minha família e pedir ajuda. Minha mãe e minha irmã vieram, começaram a tramitar os documentos e fui liberado pela Justiça para que pudesse começar uma nova fase em minha vida”, contou Jhone se referindo ao início do tratamento contra o vício de drogas.

Arquivo Pessoal

Atualmente, com a família, Jhone segue com o tratamento contra as drogas e diz que quer um novo caminho em sua vida

Jhone não caminha sozinho. Orgulhosa da “injeção” de ânimo que o irmão tomou, Djuliana Gonçalves, disse estar muito feliz.  “Minha mãe sofria muito. Nós sofríamos bastante, mas ele nunca deixou de manter contato e nisso destaco que sempre ao falar com a minha mãe, ela nunca o cobrava. Acredito que é isso que falta em muitas famílias que enfrentam essa situação. O importante é que ele quis iniciar o tratamento e a pessoa que tem o vício nas drogas também tem que querer ser ajudado. A principio, ficávamos muito apreensivos, pelo tempo que ele passou fora de casa. Sempre tivemos esperança que aceitasse um tratamento, mas ele não queria. Até que ele, finalmente, tomou a decisão”, contou Djuliana Gonçalves a este Diário destacando que é o irmão quem tem que tomar decisões para uma mudança de vez. “Ele nunca foi tratado como ex-usuário. A responsabilidade é e vem dele sempre”, completou.

Já para Jhone, que segue firme no tratamento contra as drogas, a única palavra que ele gosta de ouvir é recomeçar. “Agradeço muito todo o apoio que tive e apenas quero recomeçar, construir um futuro, constituir minha família. Estou tendo a chance de renascer e espero que essa experiência sofrida que tive ao longo desses anos, possa ajudar muitas pessoas a refletirem naquilo que estão fazendo de errado”, finalizou.

Comentários:

afonso pereira: estamos orando por você ..Jhone.

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