"O amigo do amigo de meu pai" - Charadas, codinomes e camuflagens

Coluna Coisas da Língua, com Rosangela Villa (*) em 26 de Abril de 2019

Caros leitores

Parece brincadeira de pic esconde. Em pleno século 21, as metáforas, eufemismos, neologismos, codinomes e jogos de palavras invadiram o repertório político brasileiro, aparecendo com frequência em relatórios de investigação de crimes contra a nação. Contrariamente às  figuras de linguagens, que são recursos de expressão utilizados por um escritor com o objetivo de ampliar o significado de um texto literário ou também para suprir a falta de termos adequados em uma frase, esse palavreado vernacular que circula nos meios governamentais ganhou destaque pela irônica escolha dos paradigmas da língua para descrever um fato.

Ora, a partir do momento em que a delação premiada foi autorizada, a legião do mal que destrói o país muniu-se de codinomes para blindar parlamentares desonestos. Se deplorável não fosse o comportamento desses criminosos de toga ou de terno que envergonham a nação inteira, esse jogo com as palavras pareceria brincadeira de criança, como as de trava-línguas ou de adivinha: “Sabe quem é a comadre da sua madrinha? Pois é!. A comadre da sua madrinha é a sua mãe!!”. Também, revestido de poder e de toda proteção parlamentar, temos o “amigo do amigo de meu pai” mais blindado que jacaré em lagoa seca que se esconde na lama fétida.

No mundo infantil, adivinhações e jogos de palavras não passam de exercícios do bem, muito diferente das artimanhas para proteger corruptos e formadores de quadrilhas. Recentemente, o que mais se ouviu na mídia foi esse jogo de adivinha do quem é quem que oculta mala de dinheiro, jatinhos e carros de luxo, buscando paraísos fiscais. Assim, a cada momento, escândalo e mais escândalo. Exemplo recente é a atitude do ministro Alexandre de Moraes, do STF, que determinou que os sites das revistas Crusoé e o Antagonista retirem do ar notas e reportagem que mencionam o envolvimento do presidente da corte Dias Toffoli com a Lava Jato. Esse ato não passa de uma perseguição à mídia comprometida com a verdade, e a alguns cidadãos críticos em relação ao comportamento do Tribunal.

Até porque não cabe ao Supremo investigar se é fake news  tal notícia, o que acarretaria na suspensão da divulgação, mas, sim, à polícia. Tais fatos não causam mais surpresa, mostram, sim, que é preciso abrir a caixa de pandora da Lava Jato de uma vez por todas e prestar contas à nação. Marcelo, aquele que assina Odebrecht, esclareceu que “O amigo do amigo de meu pai” é o codinome usado para o atual presidente do Supremo que, em 2007, teria recebido propina com a aprovação de medidas provisórias favoráveis a Odebrecht. Dentre elas, o chamado “Refis da Crise”, que permitiu a renegocição de dívidas bilionárias após acertos pouco ortodoxos com Guido Mantega e Antonio Palocci. Em quem podemos confiar!?

Até o vice, Mourão, tem seus dias de cala a boca, pois diante das alfinetadas do filho do presidente preferiu dizer, apenas: “Filho é filho”. Nesse jogo de intrigas e de trocadilhos, a guilhotina paira sobre as cabeças e o medo grassa na esfera governista, pois os cargos são muito cobiçados. E o que não dizer das metáforas, ironias e sarcasmos das quais o presidente faz uso? Dias atrás, ele disse que não nasceu para ser presidente; quem nasceu para presidente está preso ou sendo processado… Difícil entender!? Não!! Até a próxima.

(*) Rosangela Villa é professora associada da UFMS e colaboradora do Diário Corumbaense.