“Nós cheguemu na escola, e agora?”

Coluna Coisas da Língua, com Rosangela Villa (*) em 09 de Novembro de 2018

Caros leitores,

Com essa frase, a educadora e sociolinguista Stella Maris Bortoni-Ricardo intitulou seu livro publicado pela editora Parábola, em 2005. A frase reflete com autenticidade a fala de centenas de milhares de crianças que ingressam todos os anos nas escolas de ensino fundamental do país. Nomeadamente as daquelas crianças da zona rural, do espaço rural/urbano, de periferia da zona urbana, com pais com pouco ou nenhum nível escolar, e de baixa condição econômica.

Olhinhos ansiosos e curiosos e com a cabeça cheia de expectativas, a fala dessas crianças é matéria-prima de primeira qualidade para professores de português. O livro trata, sobretudo, da variação linguística na fala como um fenômeno que atinge distintas parcelas sociais, podendo ser percebido o uso de diferentes palavras para indicar um mesmo conceito, ou, ainda, o uso de palavras pronunciadas diferentemente da forma como são escritas. Observa-se que o fenômeno da variação na linguagem ocorre notadamente nos contextos de comunicação, quando a fala não está sendo monitorada, ou seja, numa situação comunicativa espontânea, envolvendo interlocutores familiarizados entre si.

Contudo, quando a criança ingressa na escola e se depara com o complexo ensino da escrita, o desespero não é só dela, mas das centenas de professores que, por vezes, não sabem lidar com a situação. Nesse sentido, a obra presta um serviço importante à sociolinguística aplicada à educação, em língua portuguesa, e à pedagogia sociolinguisticamente humanizadora, centrada no reconhecimento, e no trato digno das diferenças sociolinguísticas e culturais que ocorrem no português dos alunos-usuários, em nosso contexto educacional, relata o prefaciador do livro, Prof. Dr. Francisco Gomes de Matos.

É bom lembrar que questões do aprendizado da leitura e da escrita em sala de aula estão diretamente relacionadas com a escolha do material didático e da conduta do professor ante o uso variado da língua, na fala, o que refletirá diretamente na escrita. Assim, fenômenos da fala, como a troca do e por i (leite/leiti), a ausência de plural nos substantivos e adjetivos (as casa bonita/as casas bonitas), a queda da semivogal u nos ditongos (coro/couro), o apagamento do r em verbos na forma infinitiva (amá/amar), a redução do número de sílabas na palavra (abóbra/abóbora) e outros, poderão aparecer no caderno do aluno em fase inicial.

É importante estar preparado para lidar com a situação, sem desrespeitar o histórico do aluno, como falante do português, e seu ritmo de aprendizagem. Isso nos reporta a Paulo Freire que, ao ser empossado secretário da Educação de São Paulo, disse que as professoras não devem criticar ou reprimir um aluno que fale coisas como “nós cheguemu”. É certo que em outros estágios de ensino isso não é aceitável. Coisas da língua. Bom fim de semana.

(*) Rosangela Villa é professora associada da UFMS e colaboradora do Diário Corumbaense.