Jovem baleado na cabeça já mostra evolução em tratamento para recuperar movimentos

Ricardo Albertoni em 24 de Abril de 2018

Anderson Gallo/Diário Corumbaense

Fisioterapeuta Celso Cestari realiza duas sessões semanais com Erick

No último dia 09 de março, o Diário Corumbaense publicou reportagem que contou a história do jovem Erick Soares de Almeida, de 22 anos, que foi baleado na cabeça durante assalto na área central de Corumbá no dia 1º de janeiro de 2018. Após ter travado uma verdadeira batalha pela vida [inicialmente no Centro de Tratamento Intensivo do Hospital de Corumbá e depois em Campo Grande após transferência] ele recebeu alta e aguardava em casa atendimento do serviço público de saúde.

A reportagem também entrou em contato com o secretário de Saúde de Corumbá, Rogério Leite, que garantiu que determinaria atendimento ao jovem através das equipes da Saúde da Família e do Melhor em Casa. Também foi designado um profissional de fisioterapia para atender o caso do rapaz. A partir daí, o quadro de Erick evoluiu. Equipe do programa Melhor em Casa que é composta por médicos, enfermeiros e psicólogos, terapeutas ocupacionais e fisioterapeutas, deu início ao atendimento que se mostrou eficiente logo nas primeiras semanas.

Depois a profissional de fisioterapia do programa teve de se licenciar e  outro fisioterapeuta, desta vez do Núcleo de Apoio à Saúde da Família (Nasf) iniciou o atendimento ao rapaz. Com duas sessões por semana e dedicação do paciente, o quadro de Erick evolui a cada dia, como explicou o fisioterapeuta Sérgio Cestari, que atende o jovem desde o dia 10 deste mês.

“Ele é assistido por mim duas vezes na semana e na quinta-feira é atendido pela equipe do programa Melhor em Casa. Nesse período, ele teve uma melhora muito grande. Evoluiu muito bem em relação aos membros superiores e tronco, mas ainda possui certa deficiência nos membros inferiores. O quadro motor dele evoluiu para uma espasticidade - que é o enrijecimento dos membros, devido ao quadro do traumatismo craniano. Também tem um quadro de clônus muscular que são os tremores. A fisioterapia, com o alongamento e a mobilização passiva combatem tanto a espasticidade quanto o clônus”, disse o fisioterapeuta ao Diário Corumbaense.

O trabalho está sendo intensificado nos membros inferiores

Profissional da área há quinze anos, Cestari afirmou que não é possível dizer se Erick voltará a andar, porém, ressaltou que a possibilidade não está descartada e que o objetivo principal é dar qualidade de vida ao paciente.  “Não posso dizer que ele vai andar, assumi há duas semanas o quadro dele e não posso afirmar isso, mas, com a fisioterapia e com o trabalho da equipe multidisciplinar, ele pode chegar a uma evolução muito grande. O trabalho de fisioterapia, de reabilitação física é lento, então, não dá pra fazer um prognóstico, mas isso não está descartado, já que ele evoluiu muito em um curto período. Essa evolução, que considero muito boa, se deve ao tratamento intensivo que ele recebeu em Campo Grande e a assistência aqui em Corumbá. Ele é um paciente que participa da sessão, sabendo que a fisioterapia é cansativa, mas ele sabe da importância do tratamento no sentido de melhorar sua qualidade de vida, auxiliando na sua independência”, frisou o profissional que completou informando que agora o trabalho está sendo intensificado nos membros inferiores.

Presente nas redes sociais através do companheiro de todas as horas, o aparelho celular, que estava com ele no momento do assalto, mas que não foi levado pelos bandidos, Erick postou em seu perfil de rede social um vídeo de seis segundos de um movimento que já consegue realizar com as pernas. Além dos membros inferiores, ele já movimenta o braço esquerdo, o que não conseguia e já até levanta o direito com o qual conseguia apenas usar o telefone celular. Para o jovem, voltar a andar e seguir a profissão de mecânico deixou de ser um sonho para se transformar em uma possibilidade.

“Eu mal levantava esse braço [direito]. Não depender das pessoas para tudo, poder fazer algumas coisas por conta própria pra mim é muito bom. Eu já acredito que posso voltar a andar, o que antes era uma vontade agora é uma realidade. O sonho de ser mecânico ainda está presente e daqui algum tempo, quem sabe seja possível”, disse o jovem emocionado.

Erick também destacou o trabalho dos profissionais de saúde. “Uma semana depois da fisioterapia comecei a notar que os movimentos estavam voltando. A fisioterapia, o trabalho de toda a equipe são fundamentais. Os profissionais são atenciosos, mas um pouco ‘malvados’ às vezes”, brincou Erick. As dores são inevitáveis no processo de fisioterapia.

Emocionada, Ivanete Soares de Almeida, lembra do medo que tinha de o quadro do filho não evoluir. “É uma vitória, graças a Deus está evoluindo bem, rapidamente. Após a reportagem do Diário tudo mudou. Hoje ele tem atendimento psicólogo, médico, enfermeiros, fisioterapeuta e isso está sendo importante para a melhora dele. Me surpreendi com a rapidez de como tudo vem acontecendo. Eu temia por ele não poder mais andar, mas agora esse medo não existe mais. Ele já até come sozinho, o movimento do outro braço voltou, os exercícios feitos pela equipe que vem aqui em casa estão ajudando muito na recuperação dele”, disse Ivanete.

A fé que movimenta

A explicação lógica para a sobrevivência de Erick e evolução do seu quadro pode ser definida como um conjunto casual de acontecimentos físicos que foram determinantes para que ele continuasse vivo. Desde o calibre da arma, passando pela posição em que ele estava no momento do tiro; a parte exata da cabeça onde o projétil entrou e saiu; o atendimento rápido do Corpo de Bombeiros; da equipe médica no Hospital de Corumbá e em Campo Grande para onde foi transferido; o apoio da mãe e dos amigos no pós-operatório; além do atendimento do Município através da Secretaria de Saúde.

Devota de Nossa Senhora Aparecida, Pedrosa Soares de Almeida, avó de Erick, fez uma promessa pela recuperação do neto

Mas essa é a explicação lógica. A fé dos envolvidos, vai além da compreensão humana. Por definição, “a fé é um sentimento de total crença em algo ou alguém, ainda que não haja nenhum tipo de evidência que comprove a veracidade da proposição em causa. Ter fé implica uma atitude contrária à dúvida e está intimamente ligada à confiança”. De acordo com a avó do rapaz, dona Pedrosa Soares de Almeida, de 71 anos, há outra força intercedendo pela melhora do neto.

“A minha fé é nela [Nossa Senhora Aparecida] e todos os dias faço minhas orações pela manhã, à noite, essa é minha devoção. Ele é um guri novo, precisa da saúde, da vida, pra ele movimentar, ajudar a mãe dele que não dorme de preocupação, mas graças a Deus ele está melhorando. A nossa senhora está fazendo ele se movimentar e o 'chapéu' dele só vai sair de lá quando estiver bem”, disse a idosa que lembrou da promessa que fez ao saber que o neto havia sido baleado em um assalto. Com o furo da bala, ela pegou o boné que o rapaz usava e colocou na imagem de Nossa Senhora.

Desde que a reportagem foi divulgada, o jovem tem recebido inúmeras mensagens de apoio e doações de pessoas e entidades. Ele agradeceu o apoio de todos e lembrou que aos poucos, com essa ajuda, vai reaprendendo a viver.

“Aos poucos vou recomeçando a vida, dei um 'reset' e agora vou aprendendo tudo novamente:  a viver, a comer e se Deus quiser a andar. Agradeço as orações de todos, as mensagens de apoio que recebi, as orações da minha avó também, que até colocou meu boné na santa. Vou fazer de tudo para melhorar e ser um exemplo de superação”, finalizou Erick.

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