PUBLICIDADE

FFMS: time de Cezário tinha "quilos" de carimbos para fraudes

Campo Grande News em 07 de Junho de 2024

Gaeco/Reprodução dos autos

Sacolas contendo carimbos apreendidas na sede da FFMS

Um dos esquemas pensados pelo “time” comandado por Francisco Cezário de Oliveira para driblar a fiscalização e fisgar a verba destinada às viagens dos clubes durante o Campeonato Estadual de Futebol incluía fraude nos orçamentos. Para tanto, a quadrilha comandada pelo “Coronel do Futebol”, como mencionou o Gaeco (Grupo de Atuação Especial e Combate ao Crime Organizado), contava com carimbos, em nome de restaurantes e hotéis de Mato Grosso do Sul, que eram usados para forjar os documentos apresentados para a liberação dos recursos.

No dia 21 de maio, o Gaeco apreendeu na sede da FFMS (Federação de Futebol de Mato Grosso do Sul) quilos de carimbos. “Foram apreendidos surpreendentes 189 carimbos de hotéis e restaurantes de diversos municípios do Estado, demonstrando a enorme capacidade da organização criminosa em fraudar documentos para o fim de desviar verbas públicas”.

“Na apreensão, foram constatadas diversas sacolas plásticas com carimbos separados por cidades, entre elas, Mundo Novo (11 carimbos), Corumbá (10 carimbois), Ivinhema (12 carimbos), Costa Rica (15 carimbos), Naviraí (10 carimbos), Rio Brilhante (10 carimbos), Dourados (16 carimbos), Aquidauana (5 carimbos), Sidrolândia (7 carimbos), entre outras, conforme Relatório de Informação nº 103/SOI/GAECO/2024”, completa o texto assinado pelos promotores Gerson Eduardo de Araújo, Tiago Di Giulio Freire, Moisés Casarotto e Antenor Ferreira de Rezende Neto.

Ainda conforme relata a denúncia, a Fundesporte (Fundação de Desporto e Lazer de Mato Grosso do Sul) exige da Federação de Futebol a apresentação de três orçamentos, tanto em hotéis quando em restaurantes para fazer o pagamento das diárias e refeições do atletas. Os documentos eram forjados para justificar despesas não realizadas, já que segundo a denúncia, os estabelecimentos cooptados pelo esquema emitiam nota constando diárias em dobro para delegações visitantes, quando atletas haviam passado somente uma noite nos quartos, por exemplo. 

Prova do estratagema foi encontrada na casa de Cezário, segundo o Gaeco. “O esquema era acompanhado de perto pelo líder da organização criminosa, Francisco Cezário de Oliveira. Prova disso é que foi apreendido em um dos imóveis de Cezário, um controle de pagamento de diárias, alimentação, arbitragem do campeonato feminino de futebol, que também contava com incentivo financeiro do Estado de Mato Grosso do Sul, no qual constava expressamente, a caneta, as reais despesas custeadas pela entidade, que eram muito inferiores àquelas estabelecidas no convênio”, diz a denúncia.

A título de exemplo, os acusadores citam os R$ 328.830,00 recebidos pela Federação de Futebol de Mato Grosso do Sul para custear as despesas do campeonato feminino, dos quais somente R$ 170 mil foram gastos, “sendo que o restante foi desviado para os integrantes da organização criminosa, mediante a prestação de contas fictícia”.

“Assim como ocorria com o campeonato masculino, a Federação de Futebol recebia duas diárias de hotel para 25 pessoas por equipe por jogo fora de casa, mas somente pagava uma, desviando a outra”, diz o texto.

Cita ainda que para a competição de mulheres havia a previsão de 750 diárias no total, mas na prática, somente 350 foram necessárias. “O mesmo acontece com a alimentação, cuja a previsão eram de 2.250 unidades (alimentação p/ 25 integrantes da delegação visitante: 1 jantar e 2 almoços – 30 jogos), mas abaixo no documento, a caneta, estava escrito ‘1050 alimentação’”.

Para os acusadores, o artifício para abocanhar parte do dinheiro destinado pelo Estado ao futebol “demostra a extrema organização do grupo criminoso, bem como a sistêmica falsificação de documentos para maquiar o desvio de verbas públicas”. 

Falha

Aparecido Alves Pereira, o Cido, sobrinho de Cezário responsável por organizar as viagens dos times pelo Estado, chegou a admitir ao Gaeco, em depoimento no dia 28 de maio, que a Fundesporte também não fazia ferrenha fiscalização.

“O responsável por fazer essa interlocução com os estabelecimentos, sejam hotéis ou restaurantes, Aparecido Alves Pereira, em seu interrogatório, admitiu que essa função lhe cabia e também que havia essa obrigação de apresentar no mínimo 3 orçamentos, entretanto deixou claro que, na prática, muitas vezes os orçamentos eram buscados a posteriori, depois de concretizada a despesa, ou seja, apenas pro forma, não se descartando, assim, diante dos inúmeros carimbos lá encontrados, que muitas vezes esses documentos tenham sido fabricados na sede da própria entidade”, registrou o Gaeco.

Cartão Vermelho

Duas semanas depois do Mato Grosso do Sul assistir cena inimaginável – a prisão do lendário presidente da FFMS –, chegou ao fim a investigação do Gaeco sobre os desvios milionários do dinheiro destinado a fomentar o esporte.

Divulgação/Gaeco MS

Dinheiro apreendido pelo Gaeco na casa de Cezário, em 21 de maio

Na quarta-feira (05), foi remetida à 6ª Vara Criminal a denúncia oferecida pelos promotores Gerson Eduardo de Araújo, Tiago Di Giulio Freire, Moisés Casarotto e Antenor Ferreira de Rezende Neto contra o decano “dono da bola” em MS e outros 11 homens apontados como integrantes do esquema.

O Gaeco quer ver Cezário punido por 5 crimes – liderar organização criminosa, peculato (desvio de dinheiro ou bem público), furto qualificado, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro. A denúncia, passo que é dado após o fim do inquérito, foi entregue à Justiça. Agora, é juiz quem decide se aceita ou não as acusações contra os 12 indiciados.

As 253 páginas, as quais a reportagem teve acesso, trazem detalhes de como funcionava o esquema organizado por Cezário para lucrar com o dinheiro do futebol. Os valores desviados superam os R$ 6 milhões. 

Outro lado

André Borges, o advogado de Cezário, informou por telefone que só comentará o conteúdo da denúncia depois que o cliente for notificado formalmente. A preocupação agora é com a saúde do presidente afastado da FFMS.

Depois de ter o 2º pedido de liberdade negado na terça-feira (04) e no mesmo dia da morte da irmã, na quarta-feira (05), o cartola de 78 anos foi levado para o Hospital da Cassems por suspeita de que tenha sofrido um infarto. Ele passou por cateterismo e se recupera em UTI. Na quinta (06), o habeas corpus foi concedido.

Os demais citados ainda não apresentaram suas versões, a não ser Cido que explicou em depoimento ao Gaeco os motivos para os altos valores recebidos em suas contas bancárias advindos da Federação de Futebol. Ele diz ser agente de jogadores. O espaço segue aberto para futuras manifestações.